Sexta-feira, 30 de Setembro de 2022
José Pinto
José Pinto
Técnico Superior de Educação na Câmara Municipal de Vila Real

“Não vá o sapateiro além das sandálias!”

Conta-se que um célebre pintor da Antiguidade, antes de dar por terminada qualquer uma das suas obras, a colocava num local por onde passasse muita gente, e colocava-se perto, escondido, a ouvir os diversos comentários sobre ela.

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À noite, e de acordo com as críticas que considerasse válidas, corrigia a obra, de modo a que a mesma ficasse o mais possível conforme a realidade que pretendia retratar.

Um dia, depois de ter colocado a pintura em que estava a trabalhar à vista de todos, ouviu um sapateiro dizer, para quem o acompanhava, que às sandálias da pessoa retratada faltavam-lhe alguns pormenores e que as correias que as atavam às pernas não tinham a mesma espessura de uma ponta à outra, o que estava errado.

O pintor, interiormente agradecido àquele sapateiro, foi para casa, e trabalhou toda a noite para fazer as correções necessárias.

Pela manhã, colocou a pintura no mesmo local. Logo depois, passou por ali o mesmo sapateiro, o qual, tendo verificado que a pintura tinha sido alterada de acordo com as suas críticas, encheu-se de vaidade e começou a fazer comentários sobre diversos aspetos técnicos da obra: as cores, as pinceladas, a perspetiva e a profundidade, etc. E tantos disparates ia dizendo, que o pintor não conseguiu conter-se mais e, saindo de onde estava escondido, afirmou alto e bom som: “Alto aí. Não vá o sapateiro além das sandálias!”

Será uma lenda, com certeza. Mas tem muito de verdade!

Lembro-me quase sempre desta história quando ouço ou leio (particularmente nas redes sociais) algumas pessoas a falar de tudo e do que quer que seja, embora, muitas vezes, não saibam verdadeiramente do que estão a falar ou a escrever. 

É que ter opinião fundamentada sobre qualquer assunto dá mesmo muito trabalho! É necessário investigarmos, lermos, estudarmos, refletirmos… para depois podermos formar a nossa opinião sobre esse mesmo assunto. Não basta dizer: “Eu acho que…” e começar a dizer, quantas vezes, uma coisa e o seu contrário.

Particularmente nas redes sociais, quando leio algo sobre o qual sei que não está correto, fico sempre na dúvida: “Corrijo?”, pondo em prática uma das Obras de Misericórdia Espiritual: “Corrigir os que erram.”, ou deixo passar, evitando uma possível “discussão”. Habitualmente, prefiro fazer o que um dia alguém disse: “Entre a razão e a paz, procure sempre optar pela paz. Porque a razão todos querem ter, porém a paz nem todos conseguem conquistar”.

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