Agostinho Chaves

EDITORIAL

A caderneta

Chegou a vez de a caderneta da Caixa Geral de Depósitos terminar a sua existência ímpar e única de longos anos em que esteve ao serviço dos clientes desta instituição bancária.


Tudo acaba um dia, mas o fim da caderneta causa pena. Ela era mais do que uma caderneta onde registávamos os nossos ativos e passivos, com rara certeza e especial reverência. A caderneta da Caixa Geral de Depósitos era uma amiga companheira que nos acompanhava e pela qual tínhamos afeto. Registava os nossos anseios e necessidades e tinha essa informação sempre disponível para nós na gaveta da mesinha de cabeceira. Era muito diferente de um cartão multibanco, de uma carta com o extrato da conta recebida pelo correio (as cartas do correio também estão a chegar ao fim, já não há tempo para escrevê-las), ou de um balcão cheio de filas de gente com “tickets” numerados, esperando vez. 

À caderneta da Caixa era um prazer manuseá-la, coloca-la na ranhura da máquina do átrio, ler os números impressos sempre atualizados, um azimute seguro para o nosso dia-a-dia de dúvidas, fechá-la e coloca-la, respeitosamente, no bolso (sim, porque a caderneta da CGD é do tamanho ideal de um livro de bolso. A caderneta, afinal, é um livro que se abre, se desfolha e se lê).
As cadernetas são assim mesmo, nunca perdem o seu velho ar de conselheiras. Todos nós já tivemos contactos com elas: na tropa (quem esqueceu a importância da caderneta militar?), nas mercearias (“assente aí na caderneta, senhor António, que no fim do mês eu pago”), na escola (com o registo do aproveitamento, das notas e das faltas), nos centros de saúde (com as datas das consultas e das vacinas) e de identificação (a cédula, antes do bilhete de identidade).

As cadernetas são modos de vida. Testemunhos históricos. Sinais dos tempos. E das suas crises.

Pena que vá acabar a caderneta da Caixa Geral de Depósitos. É o fim de um relacionamento afetivo e amigo, quando tudo está a ser rápido demais, buliçoso demais, efémero demais. É o tempo dos “ships”, dos cartões, das “secretas”, das “delações”, das ansiedades e dos descontrolos que as cadernetas nunca permitiam.

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