Adérito Silveira

Bendito seja! Bendito seja!

O povo, na missa dos defuntos, enchia pouco a pouco a Igreja de Mateus.


Ao lado do padre paramentado, estava o sacristão Luís, sereno e seráfico com a caldeirinha de água benta na mão, vaidoso dentro da opa escarlate dos grandes dias. E a mole humana aproximava-se do altar, moçoilas à frente em disputa com as mais idosas do lugar que pensavam ter. Todas ungidas pela mesma religiosidade e vontade de rezar.

Olho as manhãs frias de luar e vejo pobres em orações piedosas e lá no alto ermidas vestidas em montes ermos… e uma velha recurvada e seca que em tempos fora linda. Linda e casta como papoilas dos campos. Olho as manhãs frias de luar e vislumbro um regimento de pobres que ia para a missa em latim, corria o ano de 1962. Os loucos iam também e rasgavam as bocas, abriam-nas para os santos e para o padre. E babavam-se como espuma de sabão. E o padre, de olhar macio e meditativo, com sotaina preta até ao chão, olhava-os levantando a cruz, subindo a hóstia com esquálida e prolongada mão.

Olho as manhãs frias de luar e na aurora do céu azul cantavam as aves em doces harmonias e os jovens com pandeiros, ferrinhos e violas batiam às portas entoando cânticos de janeiras. E os pobres como os mais pobres, de dentro, abrindo a porta rangente lhes traziam figos secos, maçãs ou outras guloseimas … os campos rasgavam-se com os arados dos carreiros enquanto os bois gigantes ruminavam em bocas bailantes, picados pelos ferrões das varas rijas que entrando na pele como lavaredas, irrompiam em doloroso braseiro.

Olho as manhãs frias de luar. Havia luz e as fontes jorravam cristalinas, voando os rouxinóis que trinavam alegres como astros cintilantes, como felicidade sem nome, como noiva pronta a noivar.  E os pobres passavam em caravanas em dias de sexta feira, levando nas bocas palavras divinas e mansos suspiros como pombas brancas …. Dentro dos sacos transportavam comida de mendigos e nos rostos sinais exaustos de cansaço e olhares feridos.

Olho as manhãs frias de luar e lembro uma anciã de 90 anos que enregelada morreu, deleitada num sorriso lembrando o pastoreio do gado e uma grande paixão que em menina tivera com o Toinas Tadeu…

E cheios de frio, os jovens abriam-se à paixão do beijo enquanto se ouviam rumores de toque de bombo, ferrinhos, realejo e melodias deslizantes que faziam os coxos dançar e as viúvas de preto bambolearem-se nos lábios em esgares e sorrisos. E numa luz perdida e ensombrada, olho numa manhã fria de luar uma mãe que foi mulher, vestida de luto e de dor, mãe que chegou a ver o sol bordado de ouro, enquanto criança, enquanto luz de vida e de esperança. Restava-lhe o clarão naufragado dos desertos tristes e desconsolados e as memórias dos ecos dos animais, das águas das fontes e dos rios…dos estrondos das trovoadas que faziam relinchar os cavalos e bailar de medo as cabras da aldeia e os pássaros que no ar cantavam gorjeios moribundos. Estava uma manhã fria de luar e de repente as nuvens invadiram os céus ficando o dia de chuva que como lágrima de nostalgia caía branda e enigmática.  A chuva era a voz de um sofrimento humano, espécie de silêncio soturno, que oprime e esmaga… os galos cantavam e o povo louvava a Deus o milagre da vida proclamando:” Bendito seja! Bendito seja!” E uma mulher chorava a saudade de um amor passado. Olhando pela janela, baixava o rosto procurando afeição nas sombras que passavam. Com dor amarga, a mulher olhava para a chuva com frio, com raiva, com dor no peito, com espirros de tosse. Nessa manhã não tinha havido luar e a noite tinha estado fria. A chuva caía. E em sorrisos brotados, o povo proclamava:” Bendito seja! Bendito seja!”

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