Armando Moreira

MIRADOURO

Prova de vida

Como todos sabemos, os sindicatos são por natureza os representantes dos trabalhadores junto das entidades patronais, por definição, para defesa dos interesses dos seus associados, em particular negociando os níveis salariais.


No nosso país, tem-se assistido, só não vê quem não quer – ao diminuir da importância do sindicalismo no setor privado da economia e à sua pujança no que se refere ao setor público, onde o patrão é o Estado. Não cabe neste nosso apontamento de hoje refletir sobre a bondade, ou mesmo o direito constitucional que assiste aos funcionários públicos em apresentaram reivindicações perante o Estado, tratando-o por patrão, o que verdadeiramente não é. Deixemos hoje porém esta questão de semântica, observando apenas que os últimos tempos têm sido de uma verdadeira acalmia, de tal sorte, que ninguém dava pela presença dos sindicatos na vida laboral.

Não é difícil de entender esta paz social, na medida em que a “Geringonça” que mantém o Governo, se tem encarregado de fazer reverter quase todos os sacrifícios que a Troika, através do Governo anterior, havia exigido ao setor público, aí incluídos até os feriados, como este do Corpo de Deus que vamos de novo celebrar no dia em que sai esta publicação em que escrevemos.
Porém, segundo se anuncia, as greves da Função Pública estão de volta, não porque haja alguma coisa para reivindicar, mas porque os respetivos Sindicatos parecem querer fazer prova de vida. De tal sorte que esta dos Professores, marcada juntamente para o dia em que iniciam as provas de aferição e exames dos alunos a quem elas se destinam, praticamente não tem motivos visíveis para a paralisação decretada.

O que é curioso, e deve ser lembrado aos dirigentes sindicais do setor público, é que os trabalhadores do setor privado da economia também foram penalizados e já não há lembrança de qualquer greve geral que tenha sido convocada por eles. E mais curioso ainda é que não foram as empresas e os trabalhadores do setor privado que colocaram o Estado Português, no Procedimento por Deficit Excessivo (PDE), como escreve Miguel Sousa Tavares no Jornal Expresso (que citamos). Mas foram eles – esses trabalhadores e não o Estado ou os seus funcionários que nos tiraram agora do PDE, graças à sua capacidade de resiliência, de inovação, de criatividade, de não desistir de ir à luta.

Que fez com que as exportações tenham aumentado, bem como o boom no setor do turismo, cujas receitas permitiram que o crescimento da nossa economia se aproxime do valor de 3 %, assim fazendo baixar o déficit orçamental para os valores que os compromissos europeus nos exigem que cumpramos.

Não, senhores sindicalistas. Se começa a haver folga na economia para melhorar alguns níveis salariais, é para os trabalhadores do setor privado que deve ser dirigida agora a devolução, porque ainda não são comparáveis as regalias da função pública em relação ao setor privado.

Ora equiparar salários e regalias é que é fazer coesão social.
 

Comentários