António Martinho

VISTO DO MARÃO

Um sinal digno de registo

Quando há anos me ocorreu fazer um trabalho em que evidenciasse o investimento das autarquias na cultura estava ainda em vigor uma Lei que concedia às autarquias um importante lote de atribuições nessa área.


A atual, de 2013, já não especifica de forma tão completa esse papel, mas não desapareceram. Nem tal podia acontecer. Efetivamente, é por via de uma política cultural local ou regional que se pode garantir a criação cultural e a fruição de manifestações culturais que a globalização não quer, ou não pode assegurar, até parece querer fazer esquecer.

As autarquias têm vindo, progressivamente, a tomar consciência de que, na 3ª fase do poder local democrático, as preocupações com a qualidade são fundamentais e devem merecer uma crescente atenção. Desde logo, a educação e a cultura, as questões sociais. Quer se valorize na cultura os aspetos estéticos e intelectuais da civilização, conceção que predominava no século XIX e que restringe muito o conceito de cultura, quer se tenha uma visão mais global como a que ressalta do conceito da UNESCO, «conjunto de traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou grupo social. Ela engloba, para além das artes e das letras, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças». Se atendermos às categorias ou níveis de cultura, a erudita, de massas e popular, esta também designada por “culturas identitárias”. Assim, no plural, como eu gosto de referir, quando falo de cultura.

Vila Real, nos últimos anos, deu passos significativos assumindo de forma clara o conceito mais abrangente de cultura/culturas, valorizando uma e outra componente das atrás referidas. A candidatura, com êxito, do processo de fabrico do barro preto de Bisalhães à integração na lista da UNESCO de Património Imaterial, assim como as atividades da Capital da Cultura do Eixo Atlântico constituem dois bons exemplos do que venho referindo.

É por isso coerente o convite que Rui Santos fez à Dona Hermínia Coutinho para mandatária da sua candidatura e de todas as candidaturas do PS nestas eleições autárquicas. Estamos perante uma personalidade que dedicou uma parte muito significativa da sua vida a fazer cultura, a desenvolver um conjunto de atividades que são “traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou grupo social”. Por outras palavras, que caraterizam uma comunidade local, que valorizam as suas vivências e experiências. A D. Hermínia soube despertar nos filhos o sentido estético, mas soube de um modo especial apreender, compreender, valorizar e dar expressão a várias formas de vida comunitária do povo, dos povos que lhe são mais próximos. Animou uma associação cultural local e colaborou de forma muito intensa com o Centro Cultural Regional de Vila Real. Constitui-se, verdadeiramente, como uma referência no concelho.
 

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