Armando Moreira

MIRADOURO

Andar às aranhas

Como se percebe, depois do que aconteceu em Pedrógão Grande, nada vai ser como dantes.


A tragédia não irá ser esquecida facilmente, e há de haver a tentação de criar medidas de política que possam antecipar ou minimizar os riscos que o país continua a correr, em particular os territórios de baixa densidade e desordenados agrícola e florestalmente.

Porém, medidas descoordenadas e desenquadradas de uma verdadeira política de ordenamento e repovoamento florestal, tendem a ser vistas apenas como medidas eleitoralistas, de fachada, cheias de boas intenções.

Na semana passada, o Primeiro-ministro acompanhado pelo Ministro Capoulas Santos, da Agricultura e eventualmente muitos outros governantes deslocaram-se a Oliveira do Hospital, para participar na cerimónia de apresentação de 20 novas equipas de sapadores florestais. Se não fora a circunstância de ter havido Pedrógão, a apresentação de 20 equipas de sapadores, teria passado despercebida, até porque tão reduzido número de operacionais não o justificaria.

O Primeiro-ministro aproveitou para garantir que o Governo vai mesmo avançar com o cadastro florestal (seja lá isso o que for) investindo ainda no aumento das equipas de sapadores florestais, de modo a cumprir o que ficou estabelecido no Parlamento, atingir as 500 equipas em 2019.

Este anúncio, que nem sequer era já uma novidade, peca pela insuficiência de informação, porque se fica sem saber, como, onde e com quem vão operar estas equipas de sapadores. Às ordens de quem, distribuídas como? Dependentes do Ministério da Agricultura sediado no Terreiro do Paço? Ou às ordens das Direções Regionais?

Questões que levantamos porque não nos parece séria esta forma de atuar. Recordamos que tem estado em discussão a descentralização para as autarquias de novas competências, ideia do Ministro Eduardo Cabrita, que já saudamos várias vezes. Assim sendo, não seria curial que estas equipas ficassem afetas às autarquias respetivas? Quem melhor conhece o terreno? Quem melhor pode fazer a articulação com os Bombeiros – ainda uma peça fundamental no combate aos fogos florestais?

Para além de que estão sediados nas câmaras municipais os serviços municipais de proteção civil.

Admitimos, e até acharíamos melhor, que se já tivessem sido refeitos os Serviços Florestais, como já advogamos tantas vezes, estes meios de combate deles estivessem dependentes, até porque as funções destas equipas não se esgotam a apagar incêndios, bem pelo contrário. A prevenção será sempre a sua missão principal e esta exerce-se ao longo de todo o ano. 

É por isso que não nos parece sério o anúncio de medidas desta natureza, sem um enquadramento em políticas que visem de facto reflorestar o país e ordená-lo do ponto de vista agrícola. Assim, fica-se com a ideia de que se pretende apenas tapar o sol com a peneira. Coisa que quem vive no interior dispensa.

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