Victor Pereira

Depressa e bem, há pouco quem

Os incêndios no centro do país têm dado pano para mangas.


Primeiro, foi a constatação de que o Estado ainda não cumpre o seu dever com competência para com os cidadãos. Sobrecarrega com impostos e mais impostos e na hora em que mais se precisa dele, tarda, aparece desorganizado, e ainda tenta descaradamente fazer um brilharete de última hora para não ficar mal na fotografia e passar incólume pelas brasas. Entretanto, os partidos políticos foram jogando ao passa-culpas, como se todos não tivessem culpa diante da calamidade da destruição da floresta e dos incêndios. Não digo que não se tenham feito alguns bons estudos e trabalhos, que são conhecidos, mas nunca houve verdadeira vontade política para se fazer um trabalho sério, porque a floresta dá trabalho, não dá muitos votos e serve pouco para fazer show político. A floresta tem estado entregue ao Deus dará e as terras e as populações do interior têm sido completamente votadas ao abandono. E só faltava um ministro dizer que “é no inverno que se faz a prevenção dos incêndios”. Vá lá, Senhor ministro. 

Em segundo, só faltava agora esta trapalhada e esta desconfiança toda à volta dos apoios e donativos para auxiliar as vítimas dos incêndios. A tragédia teve proporções inimagináveis e a emoção tomou logo conta das pessoas, levando-as a reagir imediatamente, mas desde a primeira hora que senti que estava a faltar serenidade e ponderação na ajuda, em vez de tanta pressa e precipitação, vindo agora ao de cima indícios de oportunismo, hipocrisia, sobreposição de apoios, politização de donativos, até possíveis desvios. Não percebo porque não se nomeou logo uma única comissão, conhecida de todos, para gerir os fundos, e não se criou uma conta única para canalizar todos os donativos e ofertas. Fica-nos bem, certamente, o bem-fazer e a solidariedade, que para nós cristãos é uma exigência, mas fazer o bem também exige articulação, organização e sagacidade. 

Esperemos, ao menos, aprender a lição. O Estado tem de melhorar a confiança e a relação com os cidadãos e fazer um trabalho competente diante dos problemas estruturais e necessidades do país. Nós, cidadãos, também temos de saber pensar mais no bem comum e no bem uns dos outros, e na hora de fazer o bem, fazê-lo bem, com ordem e inteligência. 

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