Adérito Silveira

A voz do professor

A vida de um professor é na verdade ingrata e desgastante.


Parece que no olhar de muitos se reflete a tristeza estampada no rosto e o desânimo pela perda de um estatuto que outrora gozava, bem como o respeito e admiração por parte da sociedade… mas não é só no olhar que se vê a desesperança e o desalento mas sobretudo na voz titubeante de muitos professores. A voz é na verdade o garante da afirmação daquilo que se diz. Na voz está a alma de quem fala e de quem sente o imperativo de comunicar bem. A voz do professor deve revelar o registo melodioso e emocional que ajudem a prender a atenção dos alunos, influenciando assim a motivação e a aprendizagem permanentes. Quando o professor utiliza uma voz expressiva, melodicamente carinhosa e de baixa intensidade, os alunos tenderão a ficar mais motivados e ficarão com uma boa impressão do “mestre”.

A voz no professor é um dos fatores que contribui para formar as primeiras impressões a par da aparência física ou do modo como se movimenta na sala de aula.

Mas existem outros fatores importantes como o “ser amigável”. A demonstração do professor na adequação de gestos e no olhar franco e sincero bem como o uso de expressões adequadamente pedagógicas e reveladoras de amizade, sustentam no aluno a presença de alguém que está ali para educar e ajudar. É um facto incontestável que a maneira de falar confiante e agradável gera uma maior proximidade afetiva e pode sinalizar ao aluno um ambiente menos controlador e mais favorável à sua autonomia, iniciativa e auto-valorização. 
Na verdade, o registo melodioso facilita a atenção e descodificação do discurso. É certo que as probabilidades de um maior empenhamento e entusiasmo dos estudantes variam na forma como os professores falam e gesticulam. Os professores que treinaram a sua voz para apresentá-la mais expressiva e melódica, poderão rapidamente colher nos seus alunos e nos primeiros dias de aulas uma impressão simultaneamente mais favorável e duradoura. É importante que o professor treine o uso da voz, em termos de potência sonora, defesa das cordas vocais ou projeção. Também será importante habilitarem-se a variar propositadamente a melodia vocal. Seria de toda a utilidade a integração desta área na formação dos futuros professores. Hoje em dia quase não se dá atenção à importância da voz na sala de aula. 

Os professores com muita frequência vivem dias de afonia e de aflição porque a sua voz não corresponde. Por arrastamento surgem problemas psicológicos pela incapacidade de não saber usar o seu instrumento fundamental para dissertar sobre as matérias e possibilitar as dialéticas necessárias. Os docentes poderão recorrer a uma linguagem mais metafórica e emocional para que os alunos se envolvam com mais facilidade nas tarefas que o ensino pode proporcionar. A relação afetiva entre professor-aluno é fundamental para um bom desempenho e levar a cabo a grande tarefa da educação no universo dos povos. A voz é o grande baluarte do milagre da linguagem. Lembro a sonoridade aveludada do grande tenor: Giuseppe Di Stefano. Nos anos 50, a sua voz deslumbrou o mundo com uma dicção imaculada, fraseados elegantes e uma forte presença em palco. Mas o cantor lírico fumava cada vez mais e queria aproveitar a vida ao máximo… e o declínio aconteceu rapidamente. Mais do que nunca o papel do professor de hoje devia merecer da parte dos governos e da população em geral um carinho e apoio especiais porque do que eles vierem a fazer irá depender o futuro do mundo. Não há futuro sem educação e nós não podemos nivelá-la tão por baixo.

Sebastião da Gama, através de um pequeno poema apontou a importância da leitura através da voz e da força da palavra pela magia da expressão e inflexão daquilo que se diz...
“Ler, despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que se lê”.

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