Adérito Silveira

Ai o meu país...

A natureza resplandecente e perfumada cantava a sua voz límpida…as pessoas associavam-se a ela cantando e rezando pela eliminação das doenças, das tragédias pedindo apenas uma morte breve e santa… e as velhas à hora da morte faziam uma profunda prece a Nossa Senhora das Graças para que não deixasse nenhuma filha por casar.


Ai a minha terra em que as rezas na hora do funeral eram composições longas de sofrimento e de repouso espiritual. Rezava-se sem pressa porque se estava com Deus.

Ai o meu país que ainda amo e sofro por ele. Um país de largos e indefinidos horizontes que em tempos rompiam as madrugadas com a voz harmoniosa dos animais e da verdura da natureza. Um país onde nas aldeias se dormia cedo e o sol vibrava nos montes ao romper da madrugada. Os bois ruminavam cedo chamando o dono baixinho para a primeira refeição.

No alto das montanhas nasciam as águias elevando-se nas alturas para mostrarem a sua beleza e força.

Em cada lugar ouvia-se a voz do rouxinol, da cotovia e do pardal e as vibrações doces e nostálgicas das colinas. As palavras eram lapidadas pela inspiração de tantos poetas que viviam a natureza habitando nela.

Havia o contacto frequente com a montanha, com as pessoas e com os animais, ampliando as visões espirituais… e os corações falavam e cobriam-se de bondade e de frio dando à pessoa a solidão que a tornava inspiradora dócil e humana.

O lirismo era terno e meigo, sem nunca ser sensual, sem lamecha e os apaixonados modelavam-se na lírica evocativa das paisagens, acertando o registo melódico dos cantares pelo tom consagrado das rezas e do pão e das rosas dos caminhos e lugares.

Ai o meu país das lágrimas solidárias e da luz esplendorosa das manhãs e das procissões em que ao toque das filarmónicas, os olhos do povo se revelavam resignados ao poder dos sons…os músicos eram os mensageiros de Deus porque tocavam inspirados na arte divina e suprema.

Noites imensas e intensas dominadas pelo luar da saudade e pela luz da esperança que a todos alumiava e tocava…

A natureza agora está mudada e parece doente…

Todos os anos o mesmo flagelo, mas em cada ano se procuram imagens mais aterradoras dos incêndios sobretudo as que possam chocar a sensibilidade de cada um.

Há quem procure os repórteres para ficarem na televisão para que os familiares, amigos e a namorada os possam ver triunfantes no “teatro de guerra.” Mais tarde eles próprios com calma e deitados no sofá, saboreiam o espetáculo procurando ver as imagens onde aparecem como se eles próprios fossem os principais atores do teatro em forma de tragédia…. Todos aparecem, menos os incendiários. Esses, não são mostrados. Assim, mais facilmente poderão ser reincidentes. Não é por acaso que todos os anos há mais incêndios, porque aqueles que as televisões não mostram vão provocar novos cenários de guerra, e incentivar 

Outros que se deliciam de ver as labaredas acendendo o milagroso isqueiro, ateando cobardemente o mato seco e indefeso…

Tenho pena que incendiários não sejam punidos na proporção da dimensão das tragédias. Tenho pena que a justiça não atue… É lamentável ver tantas imagens sobre os incêndios em Portugal. Sem elas, não haveria tanto país queimado… um País que tanto amo…

Quero olhar de novo as manhãs frias de luar e ver na aurora o céu limpo e azul e quero ouvir as aves em doce harmonia e sentir o aroma dos campos rasgados pelos arados e os bois gigantes ruminando em boca dançante. Quero lembrar a luz linda das manhãs e as fontes que jorravam cristalinas e ouvir de novo os rouxinóis que trinavam alegres como astros cintilantes como noivas a noivar. Quero lembrar de novo os pobres em dias de sexta-feira, mensageiros de Deus, que levavam nas bocas palavras divinas e nos olhos imensos e bondosos olhares. Balbuciavam orações e dentro dos sacos tinham comida e nas pernas sinais exaustos de cansaço.

A vida parecia etérea e Jesus o oráculo redentor…

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