Alfredo Mota

Um livro e a me memória familiar

A minha avó paterna, Maria Luísa, nascida em Vilar de Maçada, emigrou para o Rio de Janeiro, Brasil, no início do século passado, em 1904, tinha então 18 anos.


Nesse grande país que os portugueses descobriram e colonizaram conheceu meu avô, Alfredo Motta, natural de Braga, então próspero industrial de sedas. Lá casaram e em 1917 nasceu meu pai. O pequeno carioca, Ângelo Mota, veio para Portugal em 1927, tendo ficado a estudar, como aluno interno, no Colégio da Boavista, em Vila Real. Em 1929, meus avós regressaram definitivamente ao nosso país, tendo ido viver para Braga onde meu pai completou o ensino liceal no Liceu Sá de Miranda daquela cidade. 

Tudo isto vem a propósito de um livro que acabei de ler, a biografia de um dos mais famosos e produtivos escritores brasileiros do século passado – Nelson Rodrigues (NR), intitulado “O Anjo Pornográfico. A Vida de Nelson Rodrigues” da autoria de Ruy Castro considerado o maior biógrafo do Brasil que através de um exaustivo trabalho de pesquisa bibliográfica e de entrevistas a mais de 120 pessoas que conheceram o escritor,  conseguiu, no dizer da crítica, reconstituir a sua vida de uma forma muito completa e rigorosa. Como se pode ler na contracapa do livro: “Além de escritor prolífico, com uma produção a todos os títulos espantosa, NR foi protagonista de uma vida extraordinária: com pobreza, fome, a cegueira da filha, sucesso e declínio, doenças fatais e sucessivos golpes à sua vasta família trágica, desde homicídios (como o do irmão Roberto, a que assistiu) a soterramentos”. 

A história começa na segunda metade do século XIX no Recife onde o pai do escritor, Mário Rodrigues, muito precocemente se começa a destacar pela sua aptidão para as letras, tornando-se, ainda muito jovem jornalista, vindo mais tarde a licenciar-se em Direito. Em 1904, ainda muito novo (18 anos), casou com Maria Esther (15 anos) com quem veio a ter 14 filhos. A vida difícil no Recife levou-os a emigrar, em 1916, já com seis filhos, para a capital, Rio de Janeiro, onde acabaram por viver toda a vida. NR que tinha nascido em 1912 no Recife, foi para o Rio com 4 anos.

Apesar de em determinadas alturas da sua vida NR ter sido obrigado a “comer o pão que o diabo amassou”, também viveu períodos de felicidade, nomeadamente, com os seus sucessos literários e teatrais, e com as suas variadas relações amorosas, que desfrutou com paixão, apimentada aqui e ali por alguma loucura. NR começou a trabalhar como jornalista aos 13 anos. Escreveu 17 peças de teatro, 9 romances e milhares de páginas de contos e crónicas que, mais tarde, foram reunidas em textos e adaptadas ao teatro, cinema e televisão.

A biografia de NR é um testemunho de resiliência em que ressaltam qualidades como a capacidade de trabalho, o talento e a inteligência de um escritor e jornalista que conseguiu vencer a adversidade da doença (tuberculose) e da pobreza, a perseguição de patrões, de colegas e de políticos, que no governo usaram a censura para o tentar calar, e finalmente as tragédias familiares que o acompanharam durante a sua vida. 

Para mim, além do fascínio do próprio livro que nos dá a conhecer a riquíssima história de vida de um dos maiores escritores brasileiros do século XX, encantou-me ter ficado a saber algo da vida social e política do Rio de Janeiro do princípio do século passado, no qual viveram os meus avós e onde meu pai deu os seus primeiros passos. Foi como se tivesse revivido um passado familiar que só conheci por relatos da minha avó e do meu pai. Esta curiosidade e este encanto talvez se entendam à luz do pensamento e da obra de Michel Proust “Em Busca do Tempo Perdido”. Os livros e outros meios de informação trazem-nos à memória momentos felizes e são estas recordações que dão vida aos anos.  

Comentários