Agostinho Chaves

Manualidades

Permitam-me que inicie este texto editorial com um facto da minha vida privada.


De vez em quando, dou apoio ao trabalho de casa que a minha neta traz da escola (ela anda no 5º ano do ensino básico). São momentos de grande alegria e de convívio entre nós, enquanto se faz interação geracional e se trocam muitas ideias.

Na semana que passou, o objetivo era que ela fizesse uma “Rosa-dos-Ventos”, tamanho A4, ao seu critério. Lá estivemos a juntar o necessário: cartolina, tesoura, cola, compasso, régua, folhas de rascunho, canetas de felpo, páginas coloridas de velhas revistas, lápis, borracha, essas coisas sempre necessárias para os trabalhos manuais. Chegado aqui, gostava de salientar esta palavra: “manuais”, relativa a mãos, ao domínio dos gestos das mãos.

Precisávamos de um modelo para podermos elaborar a nossa “Rosa-dos-Ventos”, com uma estrela de oito braços, cada qual indicando para um ponto cardial. Pelo que sugeri à Ana Júlia (é esse o nome da minha neta): «Decerto, no teu manual de Geografia terás representada uma “Rosa-dos-Ventos”. Importas-te de ir ao teu quarto buscá-lo?”. Para minha surpresa, a Júlia mostrou-me o écran do seu “tablet”, onde, formoso e seguro, resplandecia o desenho de uma, acrescentando: “Não é preciso, avô! Já aqui está, no meu “tablet”».

Fiquei a pensar que eu pertenci, pertenço e pertencerei, até ao fim, a uma geração marcada pelo papel. A minha neta, entretanto, pertence à geração digital. Ela sabe que é preciso defender as árvores e diminuir paulatinamente o uso do papel, acabar com os fogos, com a poluição crescente dos rios e do mar, com o uso exagerado da gasolina e do gasóleo, com as guerras que geram tantos refugiados. 

A geração da minha neta é capaz de ser mais bem formada e mais consciente do que a minha que atenta quotidianamente contra tantos desses valores. Mas não deixo de ficar satisfeito por, ainda assim, o digital também ter a ver com o domínio dos gestos dos dedos que pertencem à mão. E, apesar do “tablet”, sabermos que tornamos numa festa o trabalho de riscar, cortar, colar, medir, dando de vez em quando uma olhadela ao ecrã para ver se as coisas estão a sair-nos bem… Afinal, as duas coisas são muito importantes para as nossas vidas.

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