JPB

JPB

JPB

ALDEIAS ESQUECIDAS

Cubas e Asnela resistem com menos de dez habitantes

A aldeia de Cubas, onde apenas vive um casal de idosos, é uma das muitas aldeias que poderá desaparecer nos próximos anos, ficando sem qualquer habitante e tornando-se numa aldeia fantasma, perdida no tempo. Asnela, onde ainda residem sete pessoas, caminha, de igual modo, para o inevitável. 


Esquecidas entre montanhas e encostas íngremes, com acessos difíceis e longe dos centros urbanos, as aldeias “fantasmas” são, hoje, uma dura e triste realidade para os poucos habitantes que nelas habitam. Perdidas na saudade e na memória dos tempos áureos, em que eram habitadas por centenas de famílias, a aldeia de Cubas e de Asnela, em Trás-os-Montes, fazem parte das muitas localidades (quase 700 em Portugal) que correm o risco de desaparecer, restando apenas as muitas casas em ruínas que ladeiam as suas pequenas vielas. 

Em Cubas, concelho de Vila Pouca de Aguiar, Francisco Costa, com 76 anos, e Maria da Liberação Alves, com 68, são os únicos resistentes numa aldeia que há 30 anos contava com mais de 70 pessoas. Isolado e sozinho, o casal combate a solidão no campo a trabalhar, ora a tratar dos seus animais ora a cultivar as suas terras, de forma a se “entreterem”. 

Numa altura em que as castanhas abundam na região, no momento da nossa chegada, apenas dois cães dão vida à aldeia, pois os seus donos encontravam-se um quarteirão acima do povo, de volta de vários castanheiros, a colher as centenas de castanhas que cobriam o terreno lavrado. 

“Levantamo-nos muito cedo, logo pelas 7h00. Depois vimos para o campo trabalhar, umas vezes a tratar das terras e outras a tratar dos animais. Esta semana temos apanhado castanhas, que este ano têm muita pouca qualidade”, conta-nos Francisco Costa. 

No regresso à aldeia, o casal confessa à VTM que não gosta de viver sozinho, sem nenhum vizinho para conversar ou passar o tempo. Francisco e Maria passam os dias inteiros sem ver uma pessoa, vivendo num mundo longínquo e único, protagonizado apenas por duas pessoas que carregam na memória não apenas os tempos em que havia muitos habitantes na aldeia, mas também o mês de agosto, que acaba, sempre, por trazer alguns emigrantes à terra. 

“Recordo-me, várias vezes ao dia, do tempo que aqui habitava muita gente, em que ainda havia escola e muitas famílias para dar vida a estas ruas velhas. Mas, infelizmente, os mais jovens migraram e os mais idosos foram morrendo, restando, agora, só dois habitantes. Apenas no verão é que a aldeia ganha mais vida com a vinda dos emigrantes”, lamenta Maria da Liberação Alves. 

Francisco e Maria têm seis filhos, mas todos eles vivem fora, uns no estrageiro e outros em Portugal, em centros mais urbanos. Contudo, os seus filhos têm feito muito esforço para que os pais abandonem a aldeia para irem viver com eles, mas Francisco confessa que só irá quando “não tiver pernas para andar” e que nunca deixará a sua terra. 

“Os meus filhos querem que deixemos a aldeia para ir morar com eles, mas nós não vamos. Enquanto puder andar não saio de Cubas, porque foi aqui que empreguei toda a minha vida”. 

 

" Os idosos faleceram e os mais jovens emigraram, restando, agora, apenas dois habitantes"

 

Francisco, natural de Frutuoso, foi para Cubas com apenas catorze anos na procura de trabalhar na agricultura. Na aldeia conheceu a sua esposa e criou os seus filhos, ingressando, posteriormente, numa aventura, como emigrante, para França, por onde se manteve quase dez anos. Mas as saudades de Maria, que ficou na terra para cuidar dos seus pais idosos e dos filhos, falaram mais alto e Francisco acabou por regressar à aldeia, local que não pretende abandonar até ao final da sua vida. 

 

" Ainda me lembro de haver muitas crianças na aldeia"

 

Com o sol resplandecente e quente, a raiar sobre as encostas que contornam a aldeia, perto do meio-dia, Maria despede-se e vai para casa adiantar o almoço para ela e para o marido. Francisco fica à conversa mais um pouco e conta-nos que a ida às compras é um problema que assola as suas vidas. O casal apenas vai à cidade duas vezes por mês para comprar alguns alimentos, porque não passa pela aldeia nenhum merceeiro ou padeiro. Os idosos têm, assim, de se deslocar a pé, por uma estrada muito estreita, durante dois ou três quilómetros até à aldeia mais próxima, onde já vivem mais pessoas. Nessa aldeia, em Valoura, espera-os um carro para os levar à cidade.

Mais tarde, despedimo-nos de Maria e Francisco e ingressámos numa viagem até Asnela, uma outra aldeia remota e desabitada, no coração de Trás-os-Montes. Percorridos mais de 40 quilómetros, deparamo-nos com Maria Lurdes que, à semelhança de Maria e Francisco, estava debaixo de um castanheiro, de luvas postas e machada na mão, a apanhar as poucas castanhas que restavam no solo. 

Com 72 anos, Maria Lurdes recorda-se de haver muita gente na aldeia, contando-nos que viviam, em Asnela, há 50 anos, mais de 250 pessoas, todas elas com “muito gado e campos” para o seu “sustento”. Infelizmente, atualmente, a aldeia não acolhe mais de sete pessoas, todas elas perdidas no tempo e na saudade da época em que ainda havia crianças na terra. 

“Antigamente viviam aqui muitas pessoas. Cada morador tinha uns bois a trabalhar ou um rebanho de gado miúdo, mas as pessoas foram morrendo, outras emigraram e cá ficamos sozinhos. Digamos que houve necessidade, por parte dos mais jovens, de ir trabalhar e à procura de uma outra oportunidade. Mas ainda me recordo de quando haviam crianças a frequentar a escola primária de Vilares, o que dava outra vida à aldeia”, conta. 

 

"Só vive bem nas aldeias quem tem boas reformas ou uma vida feita"

 

A aldeia de Asnela, do concelho de Murça, apresenta, à semelhança de outras povoações do interior do país, uma beleza natural e histórica infindável que ilustra a crise que se abatera na aldeia há muitos anos.  As casas em granito a ladear as ruas cinzentas e cobertas de musgo são o resultado da monotonia dos dias sem vida e sem movimento. Envolta por uma paisagem colorida pelos tons outonais, em Asnela restam apenas a história e o passado preservados, por pouco tempo, nos resistentes que por lá ficaram.   

“Nestes últimos 30 anos, o despovoamento tem sido cada vez maior. Quando vim para aqui, ainda haviam nove crianças na escola e hoje não há nenhuma”, conta-nos Herculano Rainho, que escolheu Asnela para passar os dias enquanto reformado, depois de ter estado em Lisboa muitos anos a trabalhar. Herculano, com 68 anos, confessa que os dias “são demorados” e se houvesse mais gente seria diferente. No entanto, conta-nos que “esta realidade não se passa apenas em Asnela, mas também por toda a região transmontana”, pelo que acredita que “só vive bem nas aldeias quem tem boas reformas ou uma vida feita, pois para os jovens não há razões para ficar”. 

Herculano Rainho conseguiu ser um empresário de sucesso, recorrendo aos recursos da aldeia. Teve a seu cargo 40 vacas de leite que lhe permitiram exportar, durante vários anos, leite para a vizinha Espanha. Contudo, com a crise financeira que abalou Portugal e com o agravamento do custo de vida, Herculano foi obrigado a desistir.

“Desisti há sete ou oito anos de exportar leite porque caímos no zero. Não havia maneira de sobreviver com o preço que pagavam pela carne e pelo leite. Por isso, reformei-me e por aqui vivo, ainda que continue a ter gado”, conta-nos. 

Já Maria Lurdes refere que não se sente isolada nem aborrecida pela falta de mais vizinhos, pois o carro permite com que vá a “todo lado”. 

“Quando temos bons carros, vamos onde queremos. Vou muitas vezes a Vila Real e ao Porto e quando necessitamos de ir às compras, vamos sem nenhuma dificuldade”.

Maria Lurdes, com os seus filhos em Lisboa, revela que não passa muito tempo sozinha porque vai, muitas vezes, para junto deles passar o Natal ou mesmo até o inverno, de forma a fugir do frio. Por vezes, passa também o Natal na Alemanha, onde estão emigrados os filhos. 

Em Asnela, ao contrário de outras aldeias desabitadas, os habitantes conseguem comprar alimentos para casa sem ter de se deslocarem, pois contam, várias vezes por semana, com a ida do padeiro e do merceeiro que lhes levam o que mais necessitam. 

Trás-os-Montes vive, assim, uma dura realidade causada por diversos fatores, sobretudo pela falta de oportunidade para os mais jovens, levando-os a emigrar desde muito cedo. O envelhecimento, a desertificação e o isolamento são problemas com os quais estas aldeias têm lidado nos últimos anos. De acordo com os Censos Sénior 2017, realizados pela Guarda Nacional Republicana (GNR), quase 5 mil idosos vivem sozinhos na região transmontana e mais de 100 estão completamente isolados. 

Comentários