Adérito Silveira

O correio das 4 e vinte

Num dia de chuva e de frio, uma mulher viúva com a carta aberta na mão desmaiou transida de dores, depois de ler que o seu filho morrera em combate no ultramar. Despedaçada na alma, não resistiu ao infortúnio da tragédia. O seu filho era o seu mundo.


 A senhora Clara sempre que entregava uma carta de conteúdo trágico chorava como se fosse a responsável, como se a sua alma se transformasse para o espelho da morte…

De vez em quando percorro as ruas e os caminhos que levavam nos anos 60 o correio trazido na camioneta do Taboada, do Pinhão até à Casa Jorge, no lugar da Raia. Movido por memórias calorosas, agarro-me a este vínculo de notícias como símbolo das grandes amizades…nesse tempo, havia solidariedade e o correio que chegava das várias proveniências era o elo de união entre todos os habitantes. 

O amor andava em viagem através das cartas, e recebê-las constituía uma enorme alegria. Mas quando elas traziam tristeza, manifestações de desamores ou o anúncio de doença ou morte de um amigo ou familiar, os rostos ficavam marcados e as mesmas cartas eram apertadas com raiva e dor no peito como se elas fossem as culpadas dos infortúnios.

Com a guerra no ultramar o correio tinha por vezes sabor amargo. Nas notícias vinham silêncios e revoltas, lágrimas e lutos que por cá ficavam para sempre. Era como se os sinos tocassem a defuntos e não mais quisessem parar.

Em Mateus todos os dias chegavam cartas carregadas de palavras que construíam ou destruíam. A canalha corria feliz atrás da camioneta do Taboada, uma ronceira preguiçosa que os jovens desafiavam em velocidade desde o fundo do Ribeiro até ao Palácio do Conde. Os mais corajosos subiam as escadas do desengonçado veículo colocadas nas traseiras e, malabaristas, subiam e desciam, corriam na estrada num desafio de loucura e de força. Alguns cães entravam na brincadeira cobertos de magreza, mas depressa desistiam com a língua de fora, rebolando-se cansados na estrada.

 O frio no inverno gretava as mãos, a humidade entranhava-se no corpo, mas a vontade de acariciar uma carta superava tudo, idealizar o que lá vinha dentro excitava e excedia os limites da imaginação. 

O povo sabia da hora do correio. A ronceira passava em Mateus por volta das 4 e vinte. Quando chegava à Droa, já a ti Ângela Batata, a ti Augusta Mio, ou ti Assunção, a aguardavam ansiosas …a esta hora já a Casa Jorge estava cheia de gente e o balcão esmagado por aqueles que queriam levar o maior número de cartas. Havia vislumbre na abertura do saco. A senhora Clara, antes de o abrir, olhava com sorriso lacónico as pessoas querendo ler nos olhos o que elas sentiam naquele momento. Às vezes atrasava a leitura para sentir a inquietação do desejo de quem esperava uma carta de amor, ou o tremor de uma missiva vinda das lonjuras do ultramar… César Augusto Monteiro, e Padre José da Silva Faceira, eram os nomes mais badalados. Uma habitual à corrida do correio, sempre que o nome do padre era chamado, beijava uma cruz que trazia enrolada no lenço da mão:” beata”, dizia um matulão sem arte nem ofício, com idade para casar, mas que a sujidade do corpo não abria portas a qualquer pretendente…

 E havia a disputa de alguém querer levar o correio para os destinatários mais generosos que em troca lhes pagavam com dinheiro, frutos secos, maçã verdinha ou malápio…Os pobres pagavam com sorrisos do tamanho do mundo e isso bastava para que o correio fosse entregue com a mesma alegria e carinho. Para Abambres as cartas eram levadas em exclusivo pela Ti Gravelina, viúva precoce, que muito cedo decretara uma virtuosa abstinência amorosa… no seu passo lesto mostrava sorrisos abertos, como se levasse as melhores notícias do mundo…

Hoje, a Casa Jorge, não distribui correio, mas lá dentro ainda se ouvem reminiscências de um passado, onde o eco das vibrações parece ainda existir no coração de alguns. O meu vibra quando por lá passo.

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