António Martinho

VISTO DO MARÃO

A Srª Amélia e a mala do correio

Era uma manhã fria aquela! Como tantas outras, afinal. O sol pouco aquecia. 


Como todas as manhãs, a Senhora Amélia, a pé, subia a estrada, na sua lide diária, em direção à Chã. Mala do correio à cabeça, sabe-se lá com que notícias para filhos, em combate no ultramar, ou para maridos que, a salto, haviam ido para a França à procura de melhores dias. Como sempre, uma pausa nas Casas da Serra para levar alguma carta que por ali houvesse sido metida na mala do correio daquela terra. Atadas as duas com um baraço, mais um salto até à Estalagem. A praina do campo da aviação, naquela manhã de inverno, tornara o último quilómetro ainda mais duro, porque o vento galego parecia cortar a pele do rosto tisnado pelo sol e pelo frio de tantos dias, a pé, por aquela estrada. Da Galiza, ou talvez, da Sanábria, aquele vento dava razão ao dito popular que “de Espanha, nem bom vento…” Nem o xaile, nem o lenço que cobria quase toda a cabeça eram suficientes para a proteger. Assim, a descoberto, era ainda mais penoso percorrer aquelo resto do caminho até a Estalagem. Para lá e para cá.

Era assim, com sol, chuva e até neve, que a Srª Amélia, estrada acima e abaixo, mantinha aquela pequena comunidade ligada ao mundo. Chegavam as cartas, de Lisboa, de Paris, os aerogramas, da guerra, o Primeiro de Janeiro e o Comércio do Porto para os que gostavam de estar ao corrente do que se passava no mundo; levavam-se outras tantas das mães, esposas ou namoradas a dar nota do que se passava por cá, ou a enviar beijos de lágrimas que a distância ou a guerra sempre provocam. O correio, depois de lidos em voz alta os nomes dos destinatários, na taberna ou na alfaiataria, ali ficava à espera que o procurassem. Era assim, num tempo sem transporte público que ligasse a aldeia ao mundo; era assim, num tempo distante em que não havia televisão, de pacote MEO, NOS ou Vodafone, nem sequer a tv a preto e branco, de um só canal, porque só na taberna se podia ver o futebol; era assim, num tempo em que o trabalho era de sol a sol e as vinhas se plantavam à força de braços, com pá, picareta e ferro do monte. Era assim, porque o Abril dos cravos e da esperança ainda não havia chegado. Era assim o serviço público postal.

Com Abril, já o Sr. Diogo nos trazia o correio na zundapp. E mesmo com frio ou chuva, a viagem, porque mais rápida, tornava-se menos dura e custosa. A motorizada facilitava a distribuição. E o Sr. Diogo depressa passou a conhecer toda a gente. E o serviço público postal passou a funcionar ainda melhor.

A modernidade também chegou. Com a democracia. Com o reconhecimento de igualdade de direitos e de deveres. Mesmo distantes de Lisboa, o correio chega(va) todos os dias. Em carrinhas vermelhas, com o homem da corneta pintado a branco. 

Como passará a ser, agora, com este frenesim contabilístico, em que o mais importante é mesmo o lucro? A perda de qualidade do serviço público postal está aí, claramente. E nós não queremos voltar aos tempos da Srª Amélia.

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