Armando Moreira

MIRADOURO

FLORESTA: À espera de quê?

E como se constata, à medida que se vão esbatendo os ecos das tragédias dos incêndios do último verão, parece que também começa a cair no esquecimento a intenção de refazer o território, – já nem dizemos a floresta, porque a devastação foi de tal ordem que não está apenas em causa o plantio de árvores, mas toda uma política de ordenamento do território e de fomento da agricultura, da silvicultura e da pecuária, nas centenas de milhares de hectares destruídos pelo fogo.


É certo que vimos há dias o Senhor Primeiro Ministro com uma enxada na mão no Pinhal de Leiria, a tentar plantar um sobreiro, assim indicando que vamos deixar de ter apenas uma mata de pinheiros, mas uma floresta com outras espécies vegetais.

Não está em causa o caricato da imagem – porque é de propaganda política que se trata, mas a ausência do anúncio de medidas para todo o país e não apenas para o Pinhal de Leiria, que era de facto um ícone da nossa floresta, desde há muitos séculos. O que o país necessita de saber, é quem vai ser responsável pela reflorestação das áreas ardidas, nos terrenos públicos, nos baldios, e nas propriedades privadas. Nos públicos, em particular aqui pela nossa região de Trás-os-Montes, esse problema não se coloca, porque não os há. Aqui, a propriedade ou é privada, ou baldio. E são estas que nos preocupam. Estamos a lembrar-nos do incêndio que deflagrou nas matas de Paredes, Coêdo, Borbela, que chegou até Lordelo e que reduziu a cinza centenas de hectares.

Na ausência dos Serviços Florestais, que foi a entidade que plantou as áreas de baldios de que as respetivas populações estavam a usufruir, há dezenas de anos, interrogamo-nos agora, quem é que vai proceder à reflorestação. Incluímos aqui os terrenos adjacentes, propriedade privada, que não estamos a ver os seus proprietários com capacidade e poder de iniciativa para proceder à reconversão. Entra aqui a nossa sugestão: devem ser as autarquias locais respetivas, Juntas de Freguesias e Câmara Municipal a tomar em mãos este problema, com o apoio técnico da nossa Universidade – que tem o Know-how necessário para operar a reconversão e aconselhar as melhores práticas e os meios financeiros dos Fundos Comunitários que, tanto quanto se sabe, ainda têm muitos saldos disponíveis.

Colocamos aqui, entre parêntesis, uma notícia que nos chega via Expresso (27 de janeiro), onde se diz: “Governo arranja 300 milhões para transportes: reprogramação do Portugal 2020 permite financiar metropolitanos, de Lisboa e Porto”. 

Não senhores governantes; essas verbas são destinadas à coesão territorial e não para as Metrópoles de Lisboa e Porto – cujos projetos de investimento público se podem autofinanciar. Dito isto – aqui fica a nossa sugestão para que as Câmaras Municipais, e neste caso a nossa, tomem em mãos este processo da reflorestação do nosso território.

É uma dor de alma, olhar para a nossa Serra do Alvão, da Samardã, do S. Bento, e não ver senão desolação. Em áreas que outrora foram viçosas, fontes de rendimento para as respetivas populações e fixadoras de alguns postos de trabalho – para a replantação, para a conservação e vigilância diária.

Na nossa opinião, só as Autarquias Locais estão em condições de se responsabilizarem pelo ordenamento do seu território. Não vale a pena esperar pela Administração Central, porque esta já provou, ao longo dos últimos quarenta anos, de que não tem capacidade, nem vocação para o fazer.

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