António Martinho

“O turismo em espaço rural, uma oportunidade no Douro e em Trás-os-Montes” – 2

Há duas semanas abordei, a propósito, alguns pontos que julguei pertinentes, decorrentes de afirmações do coordenador deste estudo que uma autarquia marcadamente rural encomendou.


Afirmei até “que o estudo deve merecer uma análise mais cuidada”. Seria muito interessante que alguma instituição convidasse Augusto Mateus (AM) para trazer o seu trabalho à nossa região. Decerto que Armindo Jacinto, presidente do Município de Idanha-a-Nova, que encomendou o estudo, não se oporá. Quem ousa fazê-lo?

Entretanto, continuemos a provocar alguma reflexão, a partir de declarações de AM na apresentação.

É interessante verificar como avalia o papel do alojamento proporcionado aos turistas que procuram experiências no meio rural: “O alojamento local no turismo em espaço rural é, basicamente, para aproximar as pessoas de experiências únicas, de experiências verdadeiras, de experiências com identidade, com cultura, com tradição, não é tanto para propiciar uma alternativa mais barata a uma proposta de hotelaria convencional”.  É que há quem defenda preços baixos nas unidades de turismo rural porque não “estamos na cidade”. Realço as afirmações do investigador, porque essas experiências de que fala são mesmo muito importantes na perspetiva de quem as procura. Aliás, como lembrei, por experiência própria, no “Visto do Marão” anterior.

Ocorreu-me, a este propósito, consultar um trabalho realizado aqui há uma meia dúzia de anos e no qual participaram os professores Carlos P. Marques e Xerardo Pereira, da UTAD, que, com a devida vénia, vou citar. O título, já então muito sugestivo, mostra-se hoje muito atual: «Reinventar o Turismo Rural em Portugal – Cocriação de Experiências Turísticas Sustentáveis». “Reinventar” foi o convite da mensagem presidencial de Ano Novo.

Ali se constata que a “experiência turística vivida pelos visitantes tem vindo a ser alvo de uma crescente atenção no âmbito do turismo, entre outros motivos, pela elevada influência que exerce na satisfação e fidelização dos visitantes aos destinos”. Em sequência, esse trabalho de investigação atribui um relevo especial à análise vivida em contexto rural. Realça, assim, os “estímulos sensoriais”, já que as atividades decorrem essencialmente ao ar livre e em contacto com produtos locais. A apreciação da paisagem e de certos pormenores da mesma estão aqui incluídos. Depois, o que designa por “experiência reconstituinte ou regeneradora”, com especial relevo para o que alguns visitantes classificam de “injeção de silêncio”. Assim se compreende melhor a procura do rio e o passeio pelos campos. Ou o interesse de alguns pela atividade agrícola. Mas os visitantes interagem com os residentes e com outros visitantes – é muito interessante o contacto entre culturas ou gerações. São as experiências sociais.

Como bem se pode ver, o turismo rural proporciona, pode proporcionar, verdadeiras experiências únicas. À atenção de todos aqueles que têm algo a ver com a qualificação da oferta.

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