Agostinho Chaves

EDITORIAL

Valores em extinção

Hoje em dia, discute-se muito a questão da falta de valores. Quem invoca essa falta é, essencialmente, quem os teve na sua geração, num mundo e numa época que, obviamente, não poderiam ter permanecido iguais àquilo que se vive hoje.


Daí que se o mundo mudou, se as gerações mudaram, se se modificaram as tecnologias, os hábitos e as condições de vida pessoal e social, os valores também acompanharam a mudança, sendo muitos deles ultrapassados pela onda desenvolvimentista. O ser humano quer aquilo que vale para si e não o que lhe não interessa, mesmo que interesse aos outros. No entanto, alguns outros valores permanecem como fio de ligação entre o rumo que o mundo toma e as necessidades e desejos de cada um de nós. São imutáveis.

Curiosamente, a mudança dos valores é hoje marcada pelas próprias instituições, desde as escolas aos tribunais. Seria de supor que estas deveriam pugnar pela manutenção de valores capazes de garantir o equilíbrio nas relações entre as pessoas e as comunidades. É que, até agora, era comum que certos princípios de natureza ética socialmente aceites fossem intocáveis. E alguns ainda são, ligados à credibilidade e à honra.

Atentemos em dois casos flagrantes dos dias atuais.

As gerações anteriores foram educadas na defesa de certas práticas hoje em desaparecimento, muito por causa de um sistema (mesmo judicial) que permite a acusação infundada ou a delação. Há benevolência por aquele que trai e entrega o amigo, denunciando-o; e muito rigor face a quem foi entregue e traído. Algo impensável, depois de Judas. Também não deixa de ser inesperado que uma informação anónima seja tida em boa conta. Até há pouco tempo, esse tipo de expressão pouco séria não era credível. Tinha como destino o cesto dos papéis.

O mundo muda. Os valores também. Os que não mudam são desprezados e condenados à extinção.
 

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