Adérito Silveira

Mulher arrependida

Benzeu-se a mulher. Rezou a todos os santos.


E enquanto rezava olhava para um crucifixo colocado em cima de uma pequena mesa e ao lado de um retrato de sua mãe já falecida de espondilose. Era tanto o fervor das rezas que a mulher estava convencida que o Cristo ali exposto a ouvia. Era outono, noite esventrada por um verão tardio, noite serena. E ela rezava com lágrimas magoadas de raiva cristalizada e arrependida.

As preces ouviam-se por toda a casa. Espasmos abocanhados por uma vida difícil de digerir. E as orações multiplicavam-se com os dentes cerrados olhando pela janela imaginando no cintilar das estrelas a luz de Cristo que comunicava com ela. No seu interior aumentava a ansiedade de ouvir a voz do todo o poderoso, a verdadeira voz da trombeta da criação do mundo e do Homem…

A mulher não se perdoava por reconhecer que a morte do seu Zacarias se deveu a ela. Morte que a tem consumido na névoa das lágrimas e na dor do desespero.

Determinada, fixou-se no Cristo cravado de espinhos pedindo-lhe perdão pelos pecados cometidos e que fosse misericordioso para com ela em relação à morte do seu Zacarias Tadeu.

Dentro da blusa decotada, sobressaiam os peitos, quando arranca do pescoço um colar de prata com uma cruz do mesmo Cristo… a mesma identidade e revelação. E enquanto coloca o colar à volta do pescoço no Cristo do crucifixo, fala com Ele: “Sabes Jesus que eu consolava o meu Zacarias, dava-lhe beijos e abraços…. Tu sabes que eu até lhe lavava as chagas do corpo e lhe aquecia as mãos e os pés gretados…” e continuava quase desfalecida:” Perdoa a fraqueza da minha alma e o cansaço do meu corpo… enquanto pude dei tudo ao meu falecido mas…ultimamente já não suportava as dores das noites mal dormidas… Eu sei, fiz o que não devia mas agora eu me arrependo e me entrego a Ti…”

A casa desta mulher era construída de pedra com interiores grandes e sombrios. Por cima da lareira estão penduradas pequenas quantidades de porco salgado e enchidos para serem fumados. Olhando para esta imagem ela recorda o seu Zacarias Tadeu porque este quadro representa o trabalho árduo e laborioso do seu homem defunto. Coberta de 2 filhos e de berreiros, a mulher deixa-os agora ao desdém e os fedelhos são acometidos de febres e de imundices várias.

Na verdade foi um ato tresloucado o que fez ao seu Zacarias…engendrou a bebida pestilenta de um veneno rápido e letal… uma droga que mal lhe tocasse na boca, o infeliz cairia no chã de repente! Horrendo e informe foi o que aconteceu na verdade… e a mulher passou a viver clamando a misericórdia de Deus… e ali estava ela declarada no seu arrependimento perante a sublimidade do Senhor na cruz à espera que Ele lhe desse pela sua própria voz a redenção do perdão eterno. 

Entretanto a pobre mulher pressentia que Jesus queria saber a razão por que matara o seu Zacarias…. E confessa-se revelando as palpitações ardentes do seu coração frágil por um músico militar graduado da Marinha… livre e com boa apresentação. Mostrando uma argumentação fácil e sedutora ele tinha-lhe manifestado o seu amor incondicional na Festa do Senhor dos Aflitos, e ao vê-la pela primeira vez o músico militar olhou-a resplandecente convidando-a para um passeio na capelinha do santo. Ali, dizia o artista que teriam a proteção divina que a livraria dos atos menos impróprios e dos pensamentos mais impuros… mas pelos vistos o santo entusiasmou-se pelo fogo-de-artifício e os olhares incandescentes dos dois provocaram faísca e um bebé haveria de nascer nove meses depois… o Zacarias não podia saber do infortúnio e a mulher desde então engendrou um plano maquiavélico para esconder o móbil da sua desgraça. 

Achou a infeliz que Jesus lhe terá mostrado um sorriso banhado de pranto e colorido de perdão e bondade… Ela sentia tudo isso e pede a Jesus que lhe abra o peito e a deixe entrar no Seu coração libertador…

Comentários