Será que ainda faz sentido ser de esquerda ou de direita?
Há dias, numa interessante entrevista concedida ao jornal Público, a magistrada do Ministério Público, Maria José Morgado, afirmava que atualmente não faz sentido ser de esquerda ou ser direita. “Acho que faz mais sentido ser honesto, defender interesses de transparência e de integridade que às vezes não têm a ver com ser de esquerda ou ser de direita.
Há gente de esquerda que não tem princípios de integridade e transparência e há gente de direita que tem”, dizia aquela magistrada.
Devo dizer que concordo plenamente com semelhante ponto de vista, até porque vindo de quem vem, de uma figura pública com um passado de militância revolucionária e que teve a frontalidade de assumir tal posição, nos deve fazer meditar e refletir se na realidade faz algum sentido, nos tempos que correm, existir no espetro politico doméstico a separação, em termos ideológicos, entre esquerda e direita. Ainda que teoricamente seja admissível a existência desta dicotomia, a prática tem demonstrado exatamente o contrário.
No nundo em que vivemos, desde a implosão da URSS, e o desaparecimento dos regimes comunistas – excetuando o da Coreia do Norte, já que mesmo a China e Cuba, embora permaneçam sob a tutela do partido único, enveredaram pela economia de mercado (outros preferem chamar-lhe economia capitalista) – temos vindo a assistir a uma prática politica onde o comportamento daqueles que se dizem partidários destas duas correntes ideológicas se confunde cada vez mais.
Quantos de alguns nossos conhecidos, e não são tão poucos como isso, que militam em partidos ditos de esquerda, praticam uma vida de extravagância e ostentação, comparativamente, com outros rotulados de direita cuja prática diária passa despercebida pelas suas atividades modestas e parcimoniosas, sendo a antítese dos seus antagonistas? Há imensos exemplos destes, na nossa sociedade, que de esquerda ou de direita só têm o nome. São inúmeros os casos de políticos, alguns com responsabilidades partidárias, que quando confrontados com situações concretas, pondo à prova o seu pensamento ideológico, revelam toda a sua incoerência e contradição, quer em termos materiais quer em relacionamento humano.
Se extrapolarmos esta situação para o plano internacional, podemos comparar, por exemplo, o comportamento de Angela Merkel e Daniel Ortega, que navegam em águas políticas diametralmente opostas, a primeira de direita e o segundo de esquerda, para concluir quão verdadeiras são estas asserções.
Assim como o Mundo deixou de estar divido em três blocos (Leste, Oeste e Não Alinhados), faz cada vez menos sentido a divisão ideológica esquerda/direita.
Faz mais sentido acentuar as diferenças e preocupações entre uma parte do mundo cada vez mais islamizada e outra que resiste às incursões terroristas dos fanáticos do islão, do que enfatizar um pretenso antagonismo entre esquerda e direita, cada vez mais residual, como o dia-a-dia nos vem demonstrando.

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