Armando Moreira

MIRADOURO

Custa a entender

Na semana passada a Comissão Parlamentar de Defesa chamou ao Parlamento o Chefe de Estado-maior do Exército (CEME), para fazer novamente o ponto da situação acerca do assalto a um dos paióis do Quartel de Tancos, ocorrido há pouco mais de um ano.


A resposta que o general Rovisco Duarte deu aos deputados de que “não sabia o que estava ali a fazer”, revela bem o desnorte a que se chegou, num episódio tão grave, que para além do mais, envergonha as Forças Armadas no seu todo.

Os portugueses em geral, e em particular quem algum dia serviu nas fileiras, seja do Exército seja de qualquer dos outros ramos da Defesa Nacional, tem na instituição militar uma imagem de rigor e de disciplina que não se compadece com a ligeireza com que este grave incidente tem sido tratado.

Vejamos: Quando veio a público o desaparecimento de material militar à guarda no referido paiol, enfatizou-se o facto das más condições das vedações do quartel, chegando-se a aventar que o material teria saído por um buraco existente na rede do referido aquartelamento. E embora, desde o início, a opinião pública suspeitasse que um episódio daquela dimensão só poderia ser atribuído a “ladrão de casa”, num primeiro impulso, o CEME decidiu suspender preventivamente os Comandantes das Unidades que supostamente tinham ou teriam tido responsabilidades naqueles aquartelamentos. Esta irrefletida decisão gerou enorme mal-estar dentro da instituição militar, de tal sorte que, decorrido não muito tempo, a decisão de suspensão foi revogada. E nada aconteceu ao general do CEME.

Esperar-se-ia que, no mínimo, esta figura se demitisse das suas funções, porque efetivamente um erro clamoroso como este, não pode deixar de quebrar o prestígio da cadeia de comando. Tal não aconteceu, tendo o responsável político – o titular do Ministério da Defesa Nacional, tido a mesma atitude, assobiando para o lado. Nem demitiu o CEME, nem ele próprio se demitiu, como se lhe exigiria. 

Entretanto, parte do material retirado do paiol veio a aparecer na Chamusca, não muito longe de Tancos, em circunstâncias estranhas, já do domínio público, denunciando uma vez mais a ligeireza com que todo este processo estava a ser tratado, com evidente desprestígio para as Forças Armadas e a incompetência com que estava a ser tratada uma questão de segurança interna, até porque o material militar em causa, poderia ser usado contra a segurança nacional.

É claro que os processos, que devem estar a decorrer – quer no âmbito da Polícia Judiciaria, quer da própria Polícia Judiciaria Militar, exigem que se preserve o seu segredo. Porém a lentidão com que tudo isto está a ser feito, não deixa de passar para a opinião pública uma ideia de lassidão, que não se pode consentir em quem vela pela nossa Defesa.
Por isso, custa a entender, como titulámos, que ninguém seja responsabilizado, estando até o próprio comandante supremo das FA – o Presidente da República, à espera das conclusões dos inquéritos.

À espera de quê? Que o material ainda desaparecido, venha a ser usado contra os cidadãos indefesos?

Haja quem mande, costumava dizer o nosso povo. Estamos de acordo. Haja quem mande.

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