António Martinho

VISTO DO MARÃO

Uma regata por este rio acima

Quando foi tornada pública a 1ª Regata de Barcos Rabelo no Douro Vinhateiro saltaram-me à memória João de Araújo Correia e Fausto. Bastaria uma frase do primeiro, enquanto intérprete do Douro, ou uma audição da canção “Por este rio acima” que deliciou os ouvidos de muitos há três décadas.


E valeu. Como soube “O Mestre de Nós Todos” antever tão bem aspetos da vida futura do seu/nosso Douro! Quando considerou ser necessário tratar da “aposentação” das embarcações que subiam e desciam o Douro transportando pipas de vinho logo sugeriu que se encontrassem “tarefas de menor fôlego, mas que os mantivessem presentes no Douro”. E rematava: «Invente-se para o Barco Rabelo, nos seus dias velhos, um serviço brando. Seja, por exemplo, um transporte de fruta e flores, um carregamento de vinho de alta estirpe, uma excursão turística, um passeio de estudo, a presença numa festa educativa ou equivalente concurso. (…)» Para finalizar a pedir perdão para quem «vê no Barco Rabelo fator indispensável à beleza do rio Douro.» Para a “excursão turística” houve engenho para tal inventar. Para outras tarefas é que nem tanto.

Surgiu agora a Confraria dos Vinhos do Douro com esta 1ª Regata. A concitar cooperações para uma tarefa deveras importante para o Douro, enquanto região vinhateira, enquanto Património da Humanidade, enquanto destino turístico. Efetivamente, e isto não é de somenos importância, “os eventos funcionam como instrumentos de promoção da imagem da região como destino turístico a ser consumido”.

Como na canção, vieram “por este rio acima, os barcos pintados de muitas pinturas, desenhando memórias ao longo da água”. E lembram-nos “que isto que é de uns também é de outros”. E que “na terra em harmonia é possível mostrar como nasce a paz”.

Nem mais. Este evento marca com inovação as vindimas de 2018. Cria uma imagem positiva do destino e promove-o. Celebra, na região que o produz, o Vinho do Porto, já que, comemorando a publicação do Alvará Régio de 1756 que criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, faz jus ao que o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto proclamou como “Port Wine Day”. Mexe com a região. Movimenta a economia de vários sítios. Torna a EN 222, entre a Régua e o Pinhão, ainda mais bela, ajudando, porventura, a chamar a atenção para as reivindicações do Presidente do Município de São João da Pesqueira para o troço que sobe das Bateiras até Figueira de Castelo Rodrigo. E não é coisa pouca.

Os Barcos Rabelo dão um outro colorido a este rio que, quando por eles era cruzado, foi rio de mau navegar. E poderiam manter esse colorido na região, quero crer. Bastaria que alguns por cá se mantivessem durante todo o ano. Em local seguro e aprazível, segundo o entendimento dos seus donos. Outros poderiam regressar a Gaia. No São João voltavam a juntar-se na regata que já tem foros de tradição. E no 10 de setembro, de novo, cá por cima. A valorizar e a promover este Douro.    

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