Eduardo Varandas

As praxes académicas e os seus malefícios

Com o início do novo ano letivo, as praxes académicas proliferam pela cidade de Lisboa, como se de uma praga se tratasse.


Quem percorrer a cidade, nestes dias, depara-se com vários grupos de estudantes, de ambos os sexos, de capa e batina, a praticarem os mais absurdos atos animalescos, em diversos pontos da capital, sem nexo ou qualquer grau de razoabilidade. A este propósito bem andou o novo reitor da Universidade do Porto ao publicar um despacho proibindo, nas instalações daquele estabelecimento de ensino superior, praxes que “atentem contra a dignidade, liberdade e direitos dos estudantes”.

Na realidade não se entende muito bem que haja alguém a querer justificar tal prática com o estafado argumento de isso facilitar a integração dos novos estudantes na vida académica e de fazer parte da tradição.

Certamente, muitos se lembram de dois casos badalados na imprensa, há alguns anos, que tiveram que ver, um com uma aluna que frequentava a Escola Superior Agrária de Santarém e se queixava de ter sido “esfregada” com bosta, proibida de usar o telemóvel, durante várias horas e depois abandonada a longa distância de casa e um outro relativo à morte, em circunstâncias estranhas, de um membro da tuna da Universidade Lusíada de Famalicão.

O que é que situações destas têm que ver com integração, pergunta-se? Nada, digo eu. Os “veteranos”, alunos mais antigos, e as próprias associações académicas, deviam instituir um Código de Praxes que visasse estabelecer uma relação de convivialidade com os novos estudantes, os chamados “caloiros”, no sentido de lhes permitir uma verdadeira integração, apoiando-os em tudo o que diga respeito à nova vida estudantil que abraçaram, designadamente, no que se refere às condições de funcionamento do estabelecimento de ensino a que pertencem e a inserção de cada um na cultura universitária, desincentivando ações de imbecilidades e autênticas humilhações, com laivos de violência sobre os novos colegas, como é comum verificar-se, nos dias de hoje.

Em tempos, num inquérito de opinião, o “Observador” divulgou que 59 por cento dos jovens dizem que as praxes deixam sempre consequências psicológicas, tendo mesmo implicações no abandono dos estudos por causa dos rituais associados a tais práticas.

Não é admissível, por isso mesmo, a prática de tais atos, que durante alguns anos, estiveram em banho-maria, para ressurgirem e se intensificarem com a massificação do ensino superior.

Sempre manifestei a minha posição anti praxe, mesmo quando passei pelos bancos da universidade, mas agora, sinto ainda maior repulsa, por tais práticas, depois de saber das humilhações e brincadeiras de mau gosto que têm lugar, um pouco por todos os estabelecimentos de ensino superior.

É lamentável não se ver uma tomada de decisão, por parte das entidades competentes, no sentido de por termo a tão aberrante situação.

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