Armando Moreira

MIRADOURO

O Brasil e a democracia - O dia seguinte

À hora a que escrevemos já são conhecidos os resultados da eleição presidencial, que tanto mobilizou a nação brasileira nas últimas semanas e que deram a vitória ao candidato Jair Bolsonaro.


Diríamos que é notícia sem surpresa, porque os inquéritos de opinião assim o exprimiam, refletindo de resto o clima que se sentia nas ruas, em particular nos dois centros urbanos mais emblemáticos: Rio de Janeiro e S. Paulo.

Ocorreu-nos fazer uma reflexão, sobre o que estava em jogo nesta pugna eleitoral, tal o dramatismo que a comunicação social do nosso país colocou sobre o ato.

Do que fomos ouvindo de amigos que vivem no Brasil, alguns até familiares, fomo-nos apercebendo do que estava em causa nesta pugna eleitoral. E é confrangedor, que muitos que opinaram sobre esta questão, nunca foram ao Brasil, não conhecem minimamente o que ali se está a passar, e têm estado a passar uma certidão de antidemocratas a todos os cidadãos que elegeram esta figura controversa, que dá pelo nome de Bolsonaro.

Nós não vamos por aí. O que é     que verdadeiramente esteve em causa?

Socorremo-nos do pensamento de um dos maiores políticos portugueses do último quartel do século passado, Francisco Sá Carneiro, a quem tantas vezes ouvimos afirmar: A postura política de qualquer cidadão deve ser sempre, em primeiro lugar o País, depois a Democracia e só depois a social democracia (falava ele para os militantes do seu partido social democrata).

Tanto quanto conhecemos do ambiente social que se tem vivido no Brasil, desde a era de Lula da Silva, em que o PT foi rei e senhor, houve uma desvalorização das instituições democráticas e de todos os órgãos políticos, que levou ao impeachment da sua sucessora e, praticamente, deixou cair o poder na rua, com as consequências conhecidas: insegurança, economia paralisada, o país a caminho do abismo.

Estas eleições para a Presidência da República e para a designação de muitos novos Governos Estaduais deram oportunidade ao cidadão de dizer não às fórmulas do passado, cujo rosto mais visível, até se encontrava encarcerado (justa ou injustamente), porque o que importava era afastar de cena o rosto de quem trouxe a miséria, a insegurança nas ruas, a corrupção…Ou seja, o que era absolutamente imperioso, não era a democracia, (fosse lá isso o que fosse) o que era necessário era salvar o Brasil. 

A questão que se coloca agora, no dia seguinte, é saber, se a figura eleita vai ter capacidade e condições para trazer aquilo que os cidadãos no seu todo exigem: um novo país.

Deixem-me transmitir uma palavra de esperança, com uma outra citação de André Malraux, um grande filósofo e político francês do século passado, referindo-se a quem temia o exercício do poder por alguém radical: nunca um radical foi ministro e nunca um ministro foi radical. Porque uma coisa é o que se diz em campanha ou em programas eleitorais e outra é quando nos confrontamos com o dia seguinte.

Pessoalmente, estamos convencidos que a estrutura de apoio do candidato eleito, em particular a instituição militar, saberá encontrar com prudência, soluções não radicais, porque primeiro está o país, como afirmava Sá Carneiro.

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