Márcia Fernandes

CRIADA A LARUP

Lagares escavados na rocha querem ser património mundial da UNESCO

Secretário de Estado do Ensino Superior marcou presença na criação da LARUP e acredita que os dados estão lançados para se avançar com a candidatura.


Valpaços abraçou a criação da Associação Portuguesa dos Lagares Rupestres (LARUP), que tem como objetivo inicial a promoção de todo o património arqueológico e natural do concelho, mas pretende chegar mais longe e conseguir a distinção de património mundial pela UNESCO, como sublinhou à VTM, Amílcar Almeida, presidente da câmara. “Valpaços tem uma riqueza incalculável que é preciso preservar”, para mais tarde “valorizar e promover” o concelho e as suas riquezas, como é o caso dos vinhos.

O facto de aqui se encontrar a “maior concentração” de lagares rupestres da Península Ibérica, o autarca revela que é importante conseguir atrair turistas. Para isso, a câmara contratou um arqueólogo para estudar o “passado histórico” do concelho, um passado que realça a produção de vinho que ainda hoje possui uma “grande relevância” para a economia do município. “Temos vários produtores de vinho que se esforçam ao longo de todo o ano para poderem apresentar no mercado os melhores néctares da região, como é o caso dos vinhos que aqui são produzidos e que necessitam de uma maior divulgação para trazer mais rentabilidades aos agricultores”.

Acrescentou também que este é “um tributo a quem agora trabalha a terra e aos antigos, que cavaram os lagares na rocha de forma rudimentar e deixaram estes vestígios que são agora objeto de estudo”.

O presidente realçou ainda o trabalho desenvolvido pelo investigador Adérito Freitas, que identificou cerca de 130 lagares escavados no granito, um trabalho de vários anos, que o levou à publicação de três livros sobre o tema. Além disso, frisou que vão ser criados roteiros para conhecer os lagares, muitos deles pertencem a privados, que estão recetivos a integrar o projeto.

SECRETÁRIO DE ESTADO ACREDITA NO SUCESSO DA CANDIDATURA

Presente no ato formal do nascimento da LARUP, o secretário de Estado do Ensino Superior, Sobrinho Teixeira, revelou que está aqui uma “excelente oportunidade” para valorizar um setor que tem sido ao longo dos anos um porta-estandarte do nosso país. “Faço um apelo aos empresários para que acreditem e valorizem o vinho, introduzindo conhecimento, que está nas universidades e politécnicos, que são fundamentais para irem mais longe”, frisou, adiantando que este é um produto “histórico e de maior sucesso” da região. “Temos de dar continuidade a um produto que as pessoas, no passado, souberam cuidar e dar-lhe valor, agora nós, através da capacidade instalada ao nível da ciência e do ensino superior, temos obrigação de fazer mais e melhor”.

 

 

Sobrinho Teixeira recordou uma história que aconteceu com os seus pais, naturais de Mirandela, em que a União Europeia dava subsídios para se arrancar vinhas, isto porque os “nossos vinhos” não iriam ter competitividade no mercado europeu e mundial. “Um produto que parecia condenado, reinventou-se e hoje continua a ser um dos principais produtos exportadores de Portugal. Mas, mais do que isso, é um dos grandes produtos que dá a conhecer o nosso país”.

Acrescenta ainda que o vinho “vale pelas suas próprias vendas, mas muito mais por aquilo que dá a conhecer de um país, sendo mesmo uma porta aberta para que outros produtos possam ter a noção de qualidade”.

E qual foi o grande segredo do vinho? Nada mais fácil de desvendar, como “a introdução de conhecimento na produção, na elaboração, no marketing, que nos leva a ter uma qualidade de vinhos de renome mundial”.

Sobre a candidatura dos lagares rupestres a património mundial, o secretário de Estado acredita num bom resultado, até porque se está a valorizar um produto que perdurou no tempo e é hoje uma imagem de marca de um país. “O vinho era aqui produzido há milhares de anos e teve uma grande relevância, agora era importante ser consolidado no futuro, trazendo cada vez mais inovação, para continuarmos a ter um produto de excelência”.

LONGO CAMINHO A PERCORRER

Os promotores da iniciativa reconhecem que até conseguirem preparar a candidatura a património mundial, que será em conjunto com a Galiza, há um longo caminho a percorrer, como referiu à VTM Augusto Lage, um dos impulsionadores da associação. “É uma candidatura muito difícil, vai durar tempo, mas julgo que venha a ser aprovada. Até porque há lagares rupestres em toda a Bacia Mediterrânica, desde a Península Ibérica, passando pela Itália, na Grécia e até na Palestina”.

Este responsável salienta também que os lagares rupestres podem funcionar como um “motor de desenvolvimento do turismo de qualidade”. “Queremos um enoturismo que se interesse pelo Interior do país, porque curiosamente os lagares rupestres que temos em Portugal são praticamente todos no Interior, mas Valpaços será onde haverá mais, pois ainda há muitos que se desconhecem”.

A descoberta destes lagares revela que ali se produzia vinho há mais de dois mil anos, sendo que há já produtores interessados em comercializar esse “precioso” néctar feito como na era dos romanos. “Já temos feito vinho nestes lagares e acredito que possam ter mercado, principalmente por haver a oportunidade de se beber vinhos como na há dois mil anos”.

Um dos homens que mais trabalhou para revelar o valor patrimonial dos lagares escavados no granito há milhares de anos foi o geólogo Adérito Freitas, que tem três livros editados sobre esta temática. “Nas obras estão identificados mais de 100, mas, entretanto, já se descobriram mais alguns”.

O investigador gostaria ainda que fosse criado em Valpaços, a terra que o viu nascer, um parque geológico para mostrar toda esta riqueza patrimonial do concelho.

 

Depoimentos

Sobrinho Teixeira, secretário de Estado do Ensino Superior

“Um produto que parecia condenado, reinventou-se e hoje continua a ser um dos principais produtos exportadores de Portugal. Mas, mais do que isso, é um dos grandes produtos que dá a conhecer o nosso país”

 

 

 

 

Amílcar Almeida, presidente da CM de Valpaços

“Valpaços tem uma riqueza incalculável que é preciso preservar, para mais tarde valorizar e promover o concelho e as suas riquezas, como é o caso dos vinhos”

 

 

 

 

Augusto Lage, impulsionador da LARUP

“Já temos feito vinho nestes lagares e acredito que possam ter mercado, principalmente por haver a oportunidade de se beber vinhos como na há dois mil anos”

 

 

 

 

Adérito Freitas, geólogo

“Verifica-se que os lagares são mais predominantes em freguesias onde houve uma maior ocupação romana, como
Santa Valha”

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