Eduardo Varandas

O uso e abuso da palavra fascista

Durante a campanha eleitoral para a presidência da República Federativa do Brasil assistiu-se à utilização da palavra fascista, por parte de um determinado setor ideológico, para “batizar” o candidato Jair Bolsonaro e todos os seus apoiantes, que nos fizeram recordar os tempos áureos do PREC.


Segundo alguns estudiosos de ciência política, embora o fascismo tivesse nascido em Itália, pela mão de Mussolini, em 1922, quando criou o Partido Nacional Fascista e, depois, na Alemanha, Hitler lhe tivesse seguido as pisadas, com a criação do Partido Nacional Socialista, não existe uma definição universalmente aceite, deste fenómeno, quanto às suas caraterísticas.

Sendo certo que o termo fascismo, na maioria das vezes, é utilizado como referência ao totalitarismo e autoritarismo, esta qualificação peca por falta de objetividade e rigor quando comparamos, por exemplo, Estaline e Mussolini. Em boa verdade, o regime estalinista foi ainda mais autoritário, totalitário e cruel do que o de Mussolini, e nem por isso é apelidado de fascista.

Francisco Pereira de Moura, elemento destacado de oposição ao Estado Novo, fundador da CDE, que sobraçou várias pastas ministeriais, no pós-25 de Abril, inquirido sobre esta matéria, numa reportagem televisiva, dizia que quando alguém se deslocasse a uma repartição de Finanças e não fosse convenientemente atendido pelo respetivo funcionário, tal comportamento, do agente do Estado, enquadrava-se na definição de fascista.

Ora, este conceito, tão primário e redutor, prova também que, já nessa altura, o termo fascista era usado não só para catalogar tudo quanto se identificasse com o antigo regime, como para questões tão triviais, como o caso exemplificado por Pereira de Moura.

Madeleine Albrigtht, diplomata e professora, com vasto curriculum, ex-secretária de Estado de Bill Clinton, autora de um livro intitulado Fascismo - Um Alerta, numa entrevista concedida, em 30/09/18, ao Diário de Noticias, dizia que Salazar não era fascista. Era um líder autoritário que via o nazismo como imoral, embora desconfiasse da democracia. Nessa mesma entrevista, afirmava que «todo o fascista é autoritário, mas nem todo o autoritário é fascista. Muitos ditadores sobrevivem suprimindo a vontade popular. Os fascistas, pelo contrário, procuram aproveitar a vontade popular e direcioná-la para a violência.»

Jorge de Almeida Fernandes, num excelente artigo de opinião, publicado no jornal Público, de 17 deste mês, faz algumas considerações sobre esta temática que vale a pena ler. Afirma, com alguma pertinência, que durante as eleições brasileiras se verificou o «milagre da multiplicação dos fascistas. Tendemos a banalizar o fascismo como ditadura reacionária. Mas o fascismo nunca se identificou como conservador ou reacionário, antes denunciava o espírito burguês, cobarde e egoísta, tal como visou substituir o capitalismo liberal por um capitalismo e uma economia submetidos ao Estado.»

Em suma, e com a devida vénia, tomo a liberdade de transcrever a sua conclusão: «O palavrão ´fascista´ apenas serve para desviar a atenção do problema de hoje, o risco de degeneração da democracia.»

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