Adérito Silveira

Luís Carlos Afonso - a despedida

Quando alguém parte para sempre e esse alguém nos faz falta no imediato, dizemos que há uma luz que nunca se apaga


Essa luz é da saudade que não morre nunca nem sai do nosso horizonte das nossas lembranças… é uma luz que celebra a vida de quem partiu e nunca foi para longe…

Luís Carlos Afonso era um homem de trato fácil, extremamente educado e de uma delicadeza contagiante. 

Inesperadamente decidiu partir quase sem avisar, decidiu ir embora, descansar. Conheci-o há muitos anos, não sei quantos mas sei que as nossas relações de amizade foram as melhores, sinceras, por isso elas perduraram no tempo. 

Mais de perto lidei com ele no ano de 1987, ele como elemento ativo, empenhado da direção da Banda de Mateus e eu como mestre da mesma banda… depois, a vida foi-nos separando, levando a reencontros e às vezes a separar-nos nos próprios reencontros. Foi um homem sempre responsável e empenhado em tudo o que fazia e esta forma de estar ou de mergulhar na vida é sempre contagiante. 

A imagem dele à frente da banda nesse ano de 1987 ao meu lado com os foguetes para os estoirar nos lugares devidamente estudados, emociona-me ainda hoje e desconcerta um pouco a minha racionalidade porque a alegria de Luís Carlos Afonso era enorme e indiscritível e só isso basta para descrever homens grandes que gostam de servir a comunidade e o torrão que os viu nascer.

Morreu uma morte sem violência, deslizando para o outro lado da vida em sonhos de verdade porque ele foi sempre íntegro, sereno e verdadeiro para com todos os que o rodeavam. Só que há nisto uma estranha assimetria. O que para os que partem é o melhor, para os que ficam a situação é difícil e quase que incompreensível e incomportável. Nada faria prever o infausto breve da sua partida. Nada, nem agora, nunca!

Morreu só fisicamente porque as lembranças nunca serão apagadas quando a luz que ilumina os homens não é feita de artifícios mas sim do brilho das lindas primaveras onde os anjos só brincam com os pássaros e as flores e os homens só comunicam com lindas palavras e cândidos sorrisos…

Toda a sua vida Luís Afonso teve a mais bela das qualidades humanas: gostava dos amigos, amava a família como elo inseparável, gostava de ler e do saber para falar com os outros. E tinha uma outra qualidade: sabia ouvir, ler entre linhas o que as pessoas queriam saber do Luís porque o Luís sabia muito, letrado da vida mas humilde sempre disponível para aprender para depois partilhar.

É sempre assim numa despedida. A crueldade da vida na derradeira partida, amenizada por um confortável “ até breve”. Mas Deus colhe na terra alguns dos seus anjos. As lágrimas vão doer para os que hoje começam a chorar a perda de um homem bom. Vai doer a sua ausência porque o Luís Afonso por onde passava deixava o seu perfume de cavalheiro, a sua voz sábia e humilde o seu sorriso que consolava. 

Como ele soube tão bem comunicar o valor da família e da amizade, a dar sem esperar qualquer retorno, a fazer o bem pelo bem e por isso ele vivia uma paz de espírito absoluta que muitas vezes procuramos e não encontramos…Quando alguém tão especial morre, é como se a terra caísse sobre nós e nos sufocasse. Mas a vida para além da morte libertará os que por cá lembram os bons e os justos que partiram.

É bem verdade que trazemos sempre dentro de nós e nos olhos da alma, uma casa, uma paisagem, um velho sonho, um amigo que nos tocou e marcou… Luís Carlos é esse amigo, portador de uma alma perfumada, a paisagem radiosa que influenciou tantas vidas.

Estas palavras que perfilo, pretendem evocar, não vagas sombras surdas e cegas mas a natureza de um grande ser humano, um amigo que se deixava conduzir e inebriar pela vida onde as estrelas do céu eram a conduta, a estrada da vida para um amor puro e sem fronteiras…

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