Mário Lisboa

A vida é uma passagem

Depois de nascermos e crescermos, o nosso corpo começa devagarinho a sua caminhada para o fim!


Não tenho a competência para avaliar se feliz ou infelizmente, mas quero crer que quase todos passamos a maior parte das nossas vidas distraídos com a sobrevivência, absorvidos na conquista de melhor emprego, de uma ascensão mais rápida na carreira profissional, preocupados em alcançar um mais alto estatuto social, consumindo o que a sociedade nos impinge, consumindo-nos! Levamos uma vida isolando-nos, vivendo de uma forma antinatural, quiçá demasiado individualista.

É então que nos começamos a aperceber de que há muito encetámos o percurso para o fim e perguntamo-nos: para quê ter corrido tanto? Para nos encontrarmos sós, para descobrir que foi essa a meta principal que alcançamos, que foi pouco mais do que isso o que resultou de uma tão grande e longa labuta. Os mais novos estão agora a percorrer o seu caminho seguindo o nosso exemplo sem se aperceberem que o fim também os espera. Não têm tempo nem espaço para nós, os “cotas”!

Entretanto, nós estamos às voltas com os problemas dos nossos pais já na quarta idade. Agora até temos espaço, mais tempo, mas menos pachorra, quiçá menos saúde, achamos que temos direito a um merecido descanso. Se somos vários irmãos, empurramos o apoio aos nossos idosos de uns para os outros e, na melhor das hipóteses, os velhotes começam a andar de casa em casa como os saltimbancos de terra em terra! Mas quando o trabalho é demasiado, a doença dos idosos grave, logo pensamos nos lares.

Às vezes, os remorsos, as evidências dos maus tratos lá proporcionados tocam-nos a consciência e conseguimos encontrar uma solução para minorar o problema, mas não sem termos primeiro infligido aos velhos sofrimento, sobretudo causado pelo sentimento de abandono. E é assim que lhes tornamos ainda mais dolorosa e solitária a inexorável caminhada para a despedida final quando Deus se apieda deles e os não deixa morrer sozinhos nos hospitais!

Que sociedade rasca é esta que ainda não conseguiu tomar o fim dos idosos descansado, de modo a que se sintam respeitados, acarinhados por aqueles que estão a beneficiar do fruto das suas vidas de trabalho e sacrifício? O idoso não quer pena nem compaixão! Quer o que nós sempre quisemos desde crianças, atenção, respeito, carinho! Novo és, velho serás, assim como fizeres, assim acharás.

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