António Martinho

VISTO DO MARÃO

“Cultura com eficácia social”

Na apresentação da Revista Memória Rural, em Vilarinho da Castanheira, Carrazeda de Ansiães, no museu com o mesmo nome, esta frase ficou a ecoar nos ouvidos dos presentes.


No final, foram várias as pessoas que a comentaram. De facto, o conceito de cultura, nos dias de hoje, vai muito além do “grau de formação, de instrução ou ainda os cuidados dados ao espírito e às ocupações do espírito”. Hoje, estamos mais no conceito da UNESCO «conjunto de traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou grupo social. Ela engloba, para além das artes e das letras, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças».

Neste sentido, é salutar ler a revista ali apresentada. Pelos artigos que contém, pela investigação aturada que lhes está subjacente. Mas, de igual modo, porque este museu perceciona a vida da comunidade daquele município e de outros contíguos, aliás, também refletidos na generalidade dos artigos publicados.

Na reflexão do Professor Gaspar Martins Pereira, que apresentou a revista, ficou bem patente a importância das iniciativas deste tipo. Quando um município, mesmo que com escassos recursos financeiros, integra nos seus quadros pessoas com capacidade crítica, com vontade de inovar, sensíveis aos valores da cultura local, empenhadas em envolver a comunidade na partilha dos seus saberes, então é fácil superar os constrangimentos e fazer com que todos apreendam a expressão de Miguel Torga - “o universal é o local sem paredes”, sejam elas de granito, ou de xisto.

Ali, naquele museu, que se assume como museu polinucleado, com o polo do azeite em Lavandeira, mesmo no sopé do castelo de Ansiães, ou o do barro em Luzelos, assim como com os núcleos dos Moinhos, de Vento ou de Rodízio, afirma-se a cultura daquele Território. Na recolha, na afirmação das identidades, na valorização do património cultural material e imaterial, o Museu da Memória Rural reflete a sua umbilical ligação à comunidade.

Também nas exposições permanentes, nas atividades que desenvolve, na revista que agora publicou, nos registos vídeo e áudio que vai realizando com os testemunhos vivos que partilham os saberes com os investigadores. Porque cultura é partilhar. Para além do que recebemos, cultura também é o que transmitimos aos outros ou o que inventamos para viver melhor.

Foi deveras interessante, nesta onda, a celebração pelo município de Vila Real do 2º ano da Inscrição do Processo de Confeção do Barro Preto de Bisalhães na lista do Património Cultural Imaterial da UNESCO. Afinal, mesmo que com alguns remoques, há uma comunidade que persiste em manter viva uma arte que faz parte da sua identidade. É preciso um esforço maior para conseguir a sua “eficácia social”.

Aqui, como noutras expressões culturais da nossa região, é fundamental dar mais valor à dimensão socioeconómica da cultura para a tornar efetivo fator de desenvolvimento.

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