Eduardo Varandas

O tratamento por tu

Uma das inovações dos tempos que correm tem que ver com a forma de tratamento que se tem generalizado na sociedade portuguesa, entre os vários estratos sociais que a constituem, onde o tratamento por tu se transformou quase numa regra.


Há dias, tive oportunidade de ser confrontado com esta realidade, na Associação 25 de Abril, onde por acaso nunca tinha entrado, durante o lançamento de um livro da autoria duma personalidade bem conhecida da vida política nacional, no decorrer do qual os membros da mesa se tratavam quase todos por tu, não obstante existir uma diferença de idades, bastante acentuada, entre alguns deles. Mas, o que mais me surpreendeu, dando até aso a que comentasse com o meu parceiro do lado, foi ver o moderador, oficial do Exército, com a patente de tenente-coronel, tratar por tu o seu parceiro de painel e autor do livro em questão, com o posto de major-general.

Este episódio causou-me alguma surpresa, não só por ter constatado haver uma diferença de 10 anos de idade entre eles, mas também, e principalmente, por estar perante um facto em que se verificou a subversão total das regras e condutas regulamentares existentes na instituição militar. Para quem cumpriu o serviço militar obrigatório, como foi o meu caso, e embora não me considere um militarista, no verdadeiro sentido da palavra, acho muito estranho este tipo de tratamento, com a agravante de tudo ter acontecido numa cerimónia pública na qual, por mais aligeiradas que possamos considerar as formalidades inerentes ao evento em si mesmo, manda o bom senso que sejam respeitadas as normas mais básicas que devem presidir a este tipo de apresentações.

No tempo da outra senhora, e durante a minha meninice, nos meios rurais, os meninos pobres tratavam os meninos ricos por você e estes os meninos pobres por tu. Prática condenável, sem dúvida. Muitas décadas depois, a pretexto de um pretenso igualitarismo toda a gente se trata por tu. Os mais novos tratam os mais velhos por tu e estes, aqueles de igual forma.

Pertenço a uma geração que foi educada a respeitar os mais velhos tratando-os com a deferência que merecem, por força do estatuto conquistado de experiência feito e ao «peso» dos anos que cada um «carrega», em que o termo senhor fazia parte obrigatória do nosso vocabulário. 

Por tudo isto, fico, naturalmente, estupefacto e perplexo quando assisto a situações destas, que escapam à minha capacidade de entendimento da natureza humana.

Há quem tente justificar este tipo de comportamento como sendo fruto de uma maior abertura e convivência que atualmente se verifica entre os vários estratos sociais das sociedades modernas, onde a quebra de tabus e preconceitos, ancestralmente entranhados no nosso «modus vivendi», têm vindo a ser paulatinamente erradicados. Mas, eu não alinho nessa teoria. Entendo, isso sim, que esta constatação tem mais que ver com a permissividade e a desresponsabilização verificadas em diversos setores da nossa sociedade, a vários níveis, do que atribuir culpas a outra coisa qualquer.

Todos sabemos que a vida em sociedade é dinâmica e evolutiva, mas como se costuma dizer nem oito nem oitenta, nem tanto ao mar nem tanto à terra.

 

PS: Aproveito para desejar, aos leitores e a todos quantos trabalham na VTM, votos sinceros de Boas Festas!

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