Armando Moreira

O povo é sereno

Com esta frase celebrizou-se o Almirante Pinheiro de Azevedo, aquando de uma grandiosa manifestação que encheu completamente o Terreiro do Paço, no ano de 1975, durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso), conduzida pelo Partido Comunista e outras forças de esquerda.


Lembramos esta frase a propósito do movimento dos Coletes Amarelos no nosso país, na sexta-feira passada, que pretendia “Parar Portugal”, conforme manifesto previamente distribuído pelas redes sociais, mas que se converteu num verdadeiro «flop», porque o povo é sereno, como dizia o então Primeiro-ministro.

Não obstante, as 18 reivindicações que justificaram este anunciado protesto são na sua generalidade de uma evidente justiça, atentas às performances da economia portuguesa, que os governantes não se cansam de apregoar, mas, que não correspondem minimamente ao estado verdadeiro da nossa economia como vão alertando instituições internacionais independentes, como o FMI, a Comunidade Europeia, a UTAO ou mesmo o Conselho das Finanças Públicas dirigido pela insuspeita Prof.ª Teodora Cardoso.

Que isto está a ser sentido pela generalidade dos cidadãos passam-no as sucessivas paralisações no setor laboral, público e privado, conforme a comunicação social vem dando conta. O jornal Expresso, do dia 22 de dezembro, por exemplo, titula: Sindicatos não dão tréguas, nem no Natal nem no próximo ano, e explicita: 24 sectores com greves marcadas. Haverá falta de comboios, supermercados e raspadinha.

Se isto não é uma revolução (pacífica), pode-se perguntar: então para que servem as revoluções?

Bem diferentes foram as manifestações dos Coletes Amarelos em França que se repetiram em três ou quatro fins de semana, em variadíssimas cidades e que levaram o governo de Macron a ter que ceder em toda a linha e a perder o brilho da sua governação, o que nos leva a pensar se não terá perdido também, de vez, a liderança da Europa, que com a saída da chanceler alemã, se admitia pudesse acontecer.

Esta falta de liderança Europeia, com a ingovernabilidade que se constata nos países do sul – Itália, Espanha e Grécia, os movimentos populistas de alguns dos países saídos da ex-União Soviética e com o imbróglio que resulta da não saída do Reino Unido, indicia um enfraquecimento da União Europeia, que pode levar até ao seu desmantelamento.

Situação que deveria ser acautelada a todo o custo, porque a história da Europa demonstra, salvo nestes últimos cinquenta anos de paz, que o Povo não é afinal tão sereno como parece. As manifestações em França (país que costuma ser percursor dos novos fenómenos políticos) podem já indiciar, que a paciência do povo tem limites. 

Oxalá o Novo Ano, que hoje saudamos, nos venha tranquilizar.

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