António Martinho

VISTO DO MARÃO

Exigir sim, mas com propostas credíveis

Quando há duas semanas, no Panamá, foi anunciado que as Jornadas Mundiais da Juventude de 2022 se realizariam em Portugal, na cidade de Lisboa, fiquei algo perplexo quando vi surgirem novos defensores do interior, alguns a pugnar pela descentralização (qual?), outros com escritos inflamados contra os tão velhos centralistas da capital que até se esqueceram dos muitos centralismos que por aí campeiam. Não fora o “dejá vu” e seríamos tentados a aplaudir tão inflamados discursos/escritos.


Com franqueza, mas não me revi em tais afirmações. Quando se ataca um evento como o que foi anunciado, porque não foi escolhida a cidade de Beja, Castelo Branco ou Bragança para local de realização, algo vai mal. Estou mesmo convencido que é esse tipo de afirmações que desacreditam iniciativas bem estruturadas e excelentemente fundamentadas em defesa de um desenvolvimento mais harmonioso do país. Esteve bem o Patriarcado de Lisboa, o Presidente da República, o Governo e o Presidente de Câmara de Lisboa. Souberam afirmar Portugal na organização de grandes eventos, mais um. Interpretaram bem a necessidade de abertura de caminhos para a ligação a África, no caso, sentida pela Igreja Católica para o contacto com os jovens. Como continuamos (alguns continuam) a precisar de compreender melhor o papel que o Portugal democrático pode desempenhar no mundo! Um evento muito direcionado para os jovens dos quatro cantos do mundo. Católicos, sim, mas jovens, antes de mais, os que são capazes de compreender a mensagem de um Papa dos tempos novos.

Ora, nem de propósito! A semana que se seguiu a esta boa nova foi de muitas reuniões de Câmaras e Assembleias Municipais para analisar e votar as propostas de transferência de competências para as autarquias. E a que se assiste? A avaliar pelo que se vai sabendo, os autarcas não têm mostrado grande apetência por novas competências. Alguns especializaram-se em exigir, reivindicar. Na hora da verdade, dizem não. Falta de interesse? Motivações de outra natureza? Ou razões pouco consentâneas com o discurso aparentemente louvável do valia do exercício dos mandatos mais próximo dos cidadãos? Depois, critica-se o Plano Nacional de Investimentos (PNI) porque a rua do meu quintal não tem prevista uma verba para a calcetar de novo.

Gostei, assim, de saber que os autarcas da barragem do Baixo Sabor se muniram de um trabalho em profundidade para apresentar ao Governo propostas concretas que transformem debilidades em vantagens, circunstâncias classificadas por fraquezas em forças dinamizadoras de desenvolvimento. Como gostei de ver Rui Santos, olhos nos olhos, frente ao Primeiro-ministro, dizer que, mais que a descentralização de que se fala, o importante, mesmo, é fazer avançar o imperativo constitucional da regionalização e, em vez de pugnar pelo alargamento do canal navegável do rio Douro, apelar à inclusão do IC26 no famigerado PNI. Curto, mas claro. Em prol de uma região do interior.

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