Mário Lisboa

Ser de Vila Real, um tema em questão

Quando em 1 de setembro de 1957 nos apresentamos na Base Aérea nº 1, em Sintra, para iniciarmos uma carreira militar, na então Aeronáutica militar, a saudade de Vila Real começou logo naquele dia


Nunca tínhamos saído da Bila para tão longe, para um mundo novo que iria tentar perceber. Os anos passaram-se, e a nostalgia da nossa terra, anda sempre comigo, “uma espécie de guarda-costas” a proteger-me nos bons e maus momentos que a vida me tem proporcionado. Assim, sempre que temos oportunidades vamos até Vila Real cumprindo o “prometido aos meus pais” no dia 1 de setembro de 1957, que voltaria sempre que possível.

Quando no regresso à Bila, divertimo-nos imenso nestas curtas visitas, observar os nossos conterrâneos, que vão vivendo as suas vidas cheias de graça e de peculiaridades que passamos a expor. Assim, os vila-realenses não são rancorosos, ressentidos ou vingativos.

Os vila-realenses não gostam de andar a pé, andam por obrigação andam porque não conseguem, que todas as ruas da cidade sejam como a Avenida Carvalho Araújo, onde podem parar o veículo em que seguem, a qualquer instante, para ir à Pastelaria Gomes comer um covilhete, ou à Farmácia Almeida no edifício do atual hospital, antigo Hotel Tocaio, a dois passos da Sé Catedral.

Andam a pé, sempre que ponderadas as alternativas, e percebem que demorariam mais tempo a ir buscar a pé o carro, não porque encontrem benefícios físicos desta atitude.

Os vila-realenses gostam do seu carro e de pará-lo no meio da estrada à descarada e apelar à boa vontade e bonomias dos outros.

Os vila-realenses andam sempre a tirar ou pôr qualquer coisa dos/nos carros. Estão sempre entre “vou só ali”, ao “é só um instante”, com a certeza na compreensão dos outros, porque eles fariam a mesma coisa.

Os vila-realenses acham que ser apressado ou stressado faz mal ao coração dos outros, pelo que não entendem e ofendem-se quando são admoestados sobre a sua conduta na estrada.

Reagem mal aos condutores que esperam atrás dos seus carros, não chegam a vias de facto, gesticulam malcriadamente ou lançam impróprios verbais, mantêm a civilidade dentro dos parâmetros, senão os desejáveis, pelos menos não partem para a violência física, e isso, é de louvar.

Andar de carro A a B, distantes entre si 300 metros, é normal. Vestem o fato de treino catita e, orgulhosamente, exercitam o seu corpo já moldado ao assento da viatura. Andam a direito, porque a única subida que fazem durante o dia, é quanto se cansam para treparem para os seus altos jipes. É vê-los a marcharem pela Ponte Metálica até a Estação dos Caminhos de Ferro, ou então na volta do Circuito Automóvel de Vila Real, em passo corrido, a ver se a meia hora de passeio compensa a quilometragem das suas viaturas já feita.

Quando regressam, lá está o carrinho para os conduzir a casa, que já é tarde e o jantar atrasa-se.

Os vila-realenses normalmente criticam o Governo e o atendimento nas repartições públicas até à medula.

Na crítica já referida vai tudo a eito. E é nisto que reside a graça dos vila-realenses.

Esta vida são dois dias, e os vila-realenses tratam de os fazer render até ao tutano.

Não há dúvida que ser de Vila Real é um privilégio daqueles que nela moram ou nela nasceram.

Em Vila Real, pese embora os problemas existentes no país, vive-se bem e em segurança. Oxalá que isto se mantenha assim através dos tempos.

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