João Vilela

EDITORIAL

Fantasmas (1)

Portugal assistiu com incredulidade à forma como Joe Berardo se apresentou e respondeu às questões dos deputados na segunda Comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos, acerca dos créditos que criaram imparidades de vários milhões no banco.


O empresário madeirense, através do seu advogado, solicitou que aquela sessão se realizasse à porta fechada, ou seja não pretendia que fosse divulgada pelos meios de comunicação social, em particular que não fosse transmitida pelo Canal Parlamento. 

Luis Ramos, deputado do PSD eleito por Vila Real e presidente da Comissão, rejeitou essa possibilidade, medida que teve a concordância dos restantes deputados da comissão. Se tal não tivesse acontecido — a transmissão televisiva — não saberíamos o desplante e desfaçatez que Berardo teve perante os deputados e em particular com os portugueses, já que a Caixa é um banco público. Foram vários os momentos inenarráveis de alguém que pediu créditos de milhões e disse — sem se rir — “eu pessoalmente não tenho dívidas, claro que não tenho dívidas”. 

Recordo que, em 2016, a Caixa Geral de Depósitos foi recapitalizada em 4 mil milhões de euros, com o dinheiro de todos os portugueses. Joe Berado é responsável por cerca de 400 milhões de imparidades, e ri-se, como se viu, porque como ele diz “eu não tenho nada”, mas tem muito (a coleção de quadros — que aparentemente ninguém pode mexer –, e o grupo “Bacalhôa Vinhos de Portugal,” são os mais conhecidos). 

Isto é aquilo que podemos considerar uma dívida fantasma, porque a julgar pelos diversos depoimentos na comissão de inquérito, ninguém é — até ao momento — responsável pela(s) mesma(s). 

Berardo chegou mesmo a afirmar que “só queria ajudar os bancos”, não dá nem para imaginar o que poderia acontecer se os quisesse prejudicar. 

Ficam algumas questões pertinentes: Afinal onde está o dinheiro? E a responsabilidade de quem concedeu tais financiamentos sem garantias?

Por fim, temos de aceitar a impunidade descarada, impávidos e serenos?

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