Adérito Silveira

À conversa com Diamantino Dias

Fui a Constantim visitar um amigo.


Não um amigo qualquer mas alguém muito especial. Alguém com quem se aprende sempre muito.
Como sempre havia nele uma aura luminosa a dizer que a sua vida continua a ser raiada de luz e de fé. Uma vida permanente de esperança num mundo melhor.

Nas suas palavras continua a soar uma espécie de feitiço e magia porque o seu olhar quase que hipnotiza pela sinceridade e o seu discurso desliza fácil tendo como alvo a música e os músicos de Mateus bem como os foguetes, as arruadas e arraiais, as peripécias hilariantes que aconteciam em muitas festas populares…

Diamantino Dias foi e é um artista de eleição, uma estirpe rara de sentimentos e inspiração. Continua a ser nimbado por uma natureza criadora e plural, incitante que lapidou os melhores trompetistas do seu tempo. Foi um génio na arte de bem tocar porque interpretava a música como poucos. Um génio simples de coração porque nunca quis usar os galões da sua identidade de artista para se afirmar.

Ouvi-lo falar dá gosto e a respiração parece parar na força da auscultação. Ele é a voz que se exprime através da literacia, da música e de todas as artes. Ouvi-lo é o mesmo que não ter pressa de sair dali porque se espera sempre por mais uma história cujo enredo é quase sempre a Banda de Mateus…

As pessoas diziam que os abençoados dos deuses possuíam mãos celestes. Em tudo quanto tocavam permanecia uma luz emanada do firmamento. Esses abençoados eram gigantes solitários, poderosos e pacíficos, decisivos e íntegros.
Diamantino Dias emoldura-se nessa lindíssima imagem…

Cheguei a Constantim por volta das duas, sexta-feira, 27 de abril e o entusiasmo da nossa conversa prolongou-se até perto das cinco. O tempo voou porque nos distraímos das horas mas emocionados nas recordações de um passado que continua vivo nos rostos de músicos que passaram pela Banda de Mateus e pela Banda da Armada.

Em Diamantino Dias há uma lição de modéstia, uma eloquência de discrição, uma grandeza de espírito invulgar…
Saudade, ai tanta saudade … saudade que vai matando quem ama e sofre pelo seu semelhante…Falámos de um passado que ainda nos marca e marcará: Os tanques, a igreja, o adro, os falatórios, os fontanários, as tabernas, os bêbados e bêbadas, os assaltos às capoeiras, os músicos que foram exemplos de amor à arte musical e que tocavam até à exaustão. Sim foram temas recorrentes recordados com muita emoção e por vezes sofrimento.

Saudade é ter história e memória, é ter passado. É trazer para a mesa do convívio dos rostos as palavras daqueles que entraram para sempre nos nossos corações. E Diamantino Dias fala das pessoas como se elas estivessem sempre presentes submetidas no mesmo compasso, no mesmo diapasão e pulsação musical, na mesma tonalidade de uma obra artística que toca e emociona quem fala dela…
As nossas conversas refletiam-se de forma vibrante na minha prima Teresa, esposa de Diamantino Dias…Ali, bem perto ela permanecia excelsa no seu olhar, dócil no seu sorriso, ouvindo cada palavra, acompanhando com o mesmo entusiasmo as lembranças que a todos nos uniam.

Já quase no fim, suspirei com palavras entarameladas e nostálgicas: “Diamantino, lembras-te dos adros das capelinhas onde se rezava e dançava e dos padres que vibravam na ritualidade do santo ou da santa padroeira, e das procissões que eram vistosas com a seda dos andores…” Continuei: “e do gado e merendeiros e do cantar dos ranchos e das fitas nos chapéus…e das bandas a tocar?…”
Na hora do meu regresso, Diamantino Dias falou baixinho: “ Como o tempo voa quando se fala de música e de músicos que marcaram as nossas vidas…”. “É verdade Diamantino, em breve virei aqui para homenagearmos outros nomes que também merecem ser falados…” Já longe perguntou: “ Lembras-te do Lelo de Vila Pouca?” Berrei-lhe: “O do contrabaixo?” E o sorriso dele esbate-se na luz da distância.
 

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