Paulo Reis Mourão

A Abstenção, problema da caneta ou da mão?

Quando trabalhamos em Economia, custa ouvir chamar nomes às pessoas. Porque, como sabemos em Economia, as pessoas podem errar e arrependerem-se mas não são estúpidas. Se alguém erra é porque calculou mal todos os benefícios e custos da sua escolha no momento em que teve de optar.


Vem isto a propósito quando tantos, no rescaldo do passado 26 de maio, insultaram os 70% de eleitores que se abstiveram. 

Sou filho de Portugueses que experimentaram o regozijo pelo direito ao voto universal após 1974. A emoção com que os meus pais – sobretudo o meu Pai – participavam no momento eleitoral é uma das mais belas imagens que tenho desses momentos de uma Democracia na sua infância. Assim como certas imagens podem parecer obscenas para quem idealiza determinados quadros, também – no lugar de considerar os abstencionistas estúpidos – vejo mais a Abstenção – apesar de tudo, um Direito do Eleitor numa Democracia baseada na voluntariedade do voto – como uma obscenidade e não tanto como uma estupidez.

Assim, diversos trabalhos na literatura económica e política salientam que a Abstenção tem causas individuais, societais e de mercado político. Se começarmos por estas últimas, as causas podem dividir-se em ‘causas da oferta política’ (como uma má estratégia dos vários partidos, incapacidade de mobilização, emissão de sinais implícitos contraditórios) mas também causas da ‘procura’ (como um eleitorado que prefere outro tipo de expressões políticas para lá das institucionalizadas, que eventualmente poderá considerar até mais eficazes -como manifestações nas redes sociais, manifestações de rua ou definição de estratégias alternativas de pressão mais focada e menos generalista). 

As causas societais  apelam sobretudo a uma visão bayesiana. De acordo com o Teorema de Bayes, esperamos que a probabilidade da abstenção é composta na maioria pelos eleitores que se tivessem votado o fariam nos partidos com maior queda. Logo, e mantendo a visão bayesiana de que abstenção se correlaciona com desinteresse no foco sufragado, podemos concluir que os eleitores dos partidos que mais quebraram são sobretudo euro-cépticos, nacionais-conservadores e euro-utilitários. Isto é, ao contrário doutras realidades onde o extremismo e o populismo obrigaram a que todos os eleitores se pronunciassem sobre a sua ideia de Parlamento Europeu, o ‘contentamento descontente’ que os Portugueses vão tendo leva-os a considerar a Europa num misto de Divindade Exógena ou de Otimismo Filial.

Finalmente, as causas individuais que, bebendo um pouco das outras, juntam-lhe um tónico ao abrigo do palato de cada um. Uns não votam porque está calor, outros porque está frio, outros porque vão à pesca, ao futebol ou simplesmente porque se esqueceram. 

É nestas alturas que recordo Aqueles que nunca falharam nenhum sufrágio porque o viam como das maiores vitórias das suas vidas. E que se ainda hoje fossem vivos continuariam a votar como parte da sua respiração. Ou Aqueles que analfabetos não falhavam o voto debaixo do risco de ser ‘pecado mortal’ decretado por algum Don Camilo e o seu Pequeno Mundo. Ou Aqueles que como O’Neill nos recorda “A história do país está cheia de mãos!” Mãos que – ao longo do poema – constroem, destroem, tocam ou matam. E que votam.

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