Victor Pereira

A exploração de lítio em Barroso

O povo de Barroso tem tido uma história marcada com algum infortúnio.


Já não bastando viver numa terra fria e pouco fértil, comparada com outras, há umas décadas atrás viu um bom número de terras serem engolidas pelas águas puras das barragens, a troco de uma bagatela, levando ao êxodo de muitas famílias e pessoas, sem esquecermos os encargos climatéricos que as barragens oferecem para sempre. Agora toma a dianteira a saga da extração do lítio, mineral importantíssimo para a transição energética que as sociedades contemporâneas estão a promover, suscitando o interesse de muitas empresas, por, neste momento, ser um mineral valioso e muito rentável. E, pelos vistos, as reservas de lítio em Barroso são muito boas.

O que mais me tem impressionado neste processo todo, que agora está no centro de um necessário e obrigatório debate público, é a forma como tudo se tem feito, sobretudo por parte do governo. É de ficar pasmado com a indiferença com que a região de Barroso é tratada. Autorizaram-se prospeções e assinaram-se contratos com empresas, mas não se convocou o povo ou as entidades que o representam para se avaliar os benefícios e os malefícios da exploração e ter uma palavra a dizer, porque tem, não se apresentaram a tempo e horas formas de exploração apropriadas e sustentáveis de forma a minorar os efeitos devastadores da extração, com a devida informação às pessoas, não se apresentou um estudo do impacto ambiental digno desse nome, não se apresentaram contrapartidas e garantias para se oferecerem algumas beneficiações para as populações e a região, acenando-se apenas com a parca criação de alguns empregos. Muito pouco. Comportamento lamentável. 

Em boa hora a população sentiu um sobressalto e com maturidade democrática e cívica reagiu. Por um lado, exultámos porque a região de Barroso foi declarada património agrícola mundial pela FAO, trazendo a valorização da região e seu património, dos seus produtos, turismo, uma alavanca para o desenvolvimento económico, social e cultural da região. Depois permitimos investimentos que podem esventrar os montes, destruir a riqueza paisagística, a qualidade das terras, das águas e dos produtos, e pôr em causa a permanência e o bem-estar das pessoas que mais respeitam e amam a região. Em que ficamos? 

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