Ana Marques

Gerações às oito horas

Costumo sair cedo de casa e, embora nem pareça, logo pela manhã, existe uma panóplia de enredos interessantes que podem significar mais do que aquilo que pensamos. 


O calor tem sido abrasador nestes dias, raios parta os trinta graus que se tornam pegajosos às roupas, logo pelas oito horas da manhã! Os pássaros revelam-se com mais intensidade, sobretudo quando o sol nasce e os raios de sol dispersam-se pelas ruas matinais; as pessoas caminham, como lesmas, mas apenas nestes dias, talvez por causa da ociosidade que o calor lhes provoca. 

No outro dia, vejam lá, reparei numa senhora que caminhava tão lentamente, que quase foi contra mim por causa da sua concentração máxima no telemóvel. Fiquei a sentir-me péssima. Não quis incomodar o sossego da mesma, aquele foco que até a mim me deixou invejosa. Se ainda fosse uma pessoa que me estivesse a olhar nos olhos eu até compreendia. Agora, assim? Senti estar no sítio errado, no mundo errado, na hora errada. Enfim, eu olhei para a senhora com expressão de lamento e ela de nariz empinado retomou o seu percurso sem me dizer nada. 

Queriam vocês que ela me desculpasse!
Mais adiante, um homem com um jornal na mão. Coisa rara. Coisa que só mesmo o século passado costuma mostrar. Eu sorrio. Questiono-me o que terá ele interesse em ler: se a secção da política, da sociedade, da economia, as curiosidades fúteis, o sudoku, as anedotas ou as páginas audazes daquelas meninas que se mostram sempre disponíveis (cada um com as suas preferências). Muitas pessoas, talvez os jovens, se estivessem no meu lugar questionar-se-iam: “Mas o que raio é aquilo que ele leva ali na mão? Ah, sim, um…um jornal” e, logo a seguir, desprezariam-no como se ele fosse uma obra de arte numa galeria, vista em apenas medíocres cinco segundos, e segue o seu caminho desinteressado. Eu confesso que nem quis acreditar, quanto mais aqueles que nasceram depois de 2000. Existem sempre estas confusões de gerações, vamos ser sinceros. 

Já depois, na paragem, alunos desmotivados, com caras de poucos amigos, talvez das noitadas – ou então é só o sono. Caminho por eles, lentamente, com o passo também ele desinteressado, e consigo captar-lhes o olhar pelo canto do olho. Sei que apenas me olham porque não têm mais nada para fazer; aliás, porque querem compensar a seca que apanham à espera do autocarro. Eu ignoro, sigo o meu rumo, e também não desejo os bons dias. 

São as novas regras: passar, olhar, e fazer de conta que ninguém se conhece. 

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