Adérito Silveira

Sonhar no desejo de partir

O rapaz vivia nas terras e nos montes dentro de um silêncio por vezes perturbador. Um silêncio que circulava e zumbia… um silêncio que parecia engolir as estevas e empurrava o musgo contra o granito…


Através desse silêncio ele dizia ouvir a voz do Criador, alguém a chamá-lo para lugares distantes e promissores. Um silêncio que pela voz do vento, tornava quase sinistra a água dos charcos onde as rãs chapinham e cantam felizes à Mãe Natureza. O rapaz observa os milhafres dançando em círculos, observa a passarada que excitada debica devoradamente cerejas silvestres…

 É pronto em ajudar a família na ancestral profissão de levar o gado para pastar. É uma existência árdua longe dos amigos da escola, uma espécie vida de eremita.

A ardósia do quadro é agora a ardósia das pedras dos montes e os sons das campainhas ficam agora chocalhos do rebanho… Com o gado e longe de casa, sente-se rodeado de silêncios que o fazem pensar na vida, no futuro e até na negritude da morte. Assobia enquanto pastoreia, segurando o cajado    e sonha que um dia há de ser um homem importante capaz de ter uma casa bonita e uma mulher parideira que lhe dê muitos filhos. No fundo, ele sonha não ser acordado rudemente bem cedo para levar o gado a pastorear e que não lhe deem a sacola e o vinho… e não o mandem para lá do negrume do nevoeiro onde lobos podem atacar e matar.

À tarde, o rapaz senta-se no dorso de um pedregulho e devora com avidez uma côdea de broa com um naco de chouriço. E olha vislumbrado um horizonte que parece não ter fim. Irra! O sol ainda queima. E o rapaz sonha sair dali para sempre quando vê nos céus um avião que deixa rastos que se parecem com línguas de fogo, bonecos, desenhos animados… e plasmado, contempla o universo, as ovelhas e os cães que brincam felizes uns com os outros. Distrai-se imaginando-se fora dali ao ponto de alguns cães desconfiados se embrenharem em profundas cogitações, procurando saber o que vai na cabeça daquele rapaz sonhador. O cão mais velho, experiente e conhecedor das agruras da vida, parece adivinhar os pensamentos daquela alma triste, e lacrimeja e guincha! Sacode o rabo em manifesto sinal de reprovação…

Na labareda dos pensamentos, o rapaz ergue-se e estica-se como que a despertar de um sonho que o quer tornar realidade!

Um dia irá para terras distantes para um lugar vertiginoso, meteórico, um lugar irradiado de felicidade, espécie de conto de fadas onde uma bonita princesa o espera e o beijará afagando-o com as carícias puras de amor.

 E o rapaz lembrava-se de uns dias atrás, uma viúva de um sapateiro, ainda nova o ter assediado com palavras melosas que ele ainda não conhecia…a ter de continuar ali, temia enlouquecer privado de poder casar, pois na aldeia praticamente só havia velhos e velhas. Sim, andavam por ali duas jovens irmãs bem afidalgadas que, ele sabia que não eram doces para a sua boca…nem lábios para os seus beijos.

Ele sonhava poder encontrar uma rapariga de cabelos loiros a caírem-lhe em cachos sobre os seios, tal como se imaginam nos sonhos mais inconfessáveis. Confessou ao padre sobre estes pensamentos, mas o arcipreste com um sorriso disse-lhe que na idade dele era natural pensar assim… “o amor sincero é uma bênção do Criador”, rematou. 

No alto daquela colina o silêncio era amplo e denso como perfume de um turíbulo e como nicho de santo ele sentia-se santo também. Invadia-lhe uma inquietação mórbida própria da sua idade… o crepúsculo dominava os seus pensamentos e cogitações. O céu foi-se despojando lentamente da energia solar e o rapaz voltou para casa mergulhado na ideia de um dia sair dali para longe, muito longe onde as labaredas do céu ardessem no seu desejo de amar uma rapariga bonita, mãe de muitos filhos que haviam de ser seus também… foi dormir e descansar para um outro dia de trabalho. Afinal o cansaço é uma dádiva de Deus… na cama apaga o gasómetro e sonha embalado no desejo de partir…

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