Tempo Para Pensar
Antes do seu falecimento, o escritor italiano, Umberto Eco, concedeu uma entrevista à revista brasileira Época, onde afirma: “A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso."
"Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. A internet só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.”
Tenho uma forte impressão dos tempos atuais: o termos muita informação não significa que estejamos a adquirir conhecimento. Há um trabalho fundamental, que tem de se fazer no silêncio: fazer a síntese, ajuizar o que está certo e o que não está certo, o que é verdadeiro e o que é falso, o que é verdadeiro conhecimento e o que não é, o que é confiável e o que não é confiável. Temos de fazer o trabalho da abelha: retirar da flor (informação) apenas o néctar (conhecimento). Duvido que muitas pessoas o façam. E que alicerces e solidez terão para o fazer? O mundo atual acelerou a vida e enche-nos o tempo com mil e uma ocupações e atividades, possivelmente, muitas delas inúteis. Sem se aperceberem, muitas pessoas fazem da vida uma resposta tresloucada a estímulos e sugestões que a sociedade habilmente lhes faz entrar pelos olhos dentro. Saiu há dias um estudo que referia o facto de as crianças serem educadas com a rigidez do horário de um executivo. Querer estar sempre em tudo e estar sempre ativo e ocupado é considerado o estilo de vida do homem moderno. No meio desta bizarrice e desta fanfarronice atual, nem nos lembramos de algo fundamental, que nos distingue do resto: o pensar, para se dar sabedoria e consistência à vida. Se não damos tempo ao pensamento e à reflexão, estamos condenados à ignorância, à superficialidade, ao sem sentido e a vivermos na espuma da vida. Uma sociedade que não tem tempo para pensar está condenada ao empobrecimento humano, intelectual, espiritual e moral. Hoje o comunicar substituiu o pensar. Mas o que há para comunicar sem pensar?

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