Adérito Silveira

Cartaxo — Um amigo para sempre

No hospital, tal como estava, havia nele ainda uma aura luminosa a querer dizer-nos que a vida fora cumulativa de alegrias e paixões: um enriquecimento caldeado na dor, no sofrimento mas ao mesmo tempo uma infinita esperança de não querer morrer... Consciente da fragilidade do seu corpo, o Cartaxo balbuciava nomes de amigos mais próximos como que a querer dizer que não queria nunca separar-se deles.


Conheci o meu amigo Cartaxo em 1968 na Banda da Armada. Conheci-o e logo me impressionei com ele como músico e como homem. Inteligente e presto em dar respostas certas para tudo, respostas que demonstravam a subtileza do pensamento e a argúcia da intuição. 

Em 4 anos de companheirismo e colega no Conservatório Nacional de Música, o meu amigo Cartaxo ficou sempre colado nas minhas memórias como alguém que eu sempre respeitei pela sua forma de estar na vida. Frontal, sincero, possuído de uma personalidade forte e clarificadora. 

Depois a vida foi-nos separando levando-nos a reencontros e às vezes a separar-nos nos próprios reencontros. Ele seguiu a Marinha e a sua magna banda. Eu segui a via ensino como professor de música.

A infausta notícia da sua morte foi-me dada pelo meu irmão José Luís Silveira, compadre do Cartaxo. Com voz embargada e dolorosa, eu adivinhei nela a tragédia do sentido das palavras… a relação dos dois era intocável no comprometimento de uma amizade séria e infindável. Como músicos da Banda da Armada, partilharam aí tempos felizes embalados de sonhos, sucessos, viagens e projetos. A voz da notícia era já de saudade de uma ausência terrível difícil de aceitar e digerir.

Nos anos 70 o meu amigo Cartaxo veio várias vezes tocar com a Banda de Mateus, comigo como mestre… o seu toque não deixava ninguém indiferente pelas suas qualidades musicais intocáveis…Não precisava de estudar muito. Bastava-lhe olhar para a pauta apenas uma vez e logo os sons fluíam límpidos e cristalinos. 

Lembro um episódio muito curioso no ano de 1974 na festa de Sabroso de Aguiar. A Banda de Mateus estava curta de trombones… O Cartaxo com o seu jeito sereno e pachorrento disse-me para me confortar: “Está descansado porque no arraial o meu trombone vai mostrar todo o seu brilho e pujança…” Fiquei impressionado e comovido pela forma como ele tocou. O volume e a qualidade dos sons evidenciaram um músico completo de timbre caloroso de cortar a respiração. Com a Banda de Mateus, tocou no arraial a Banda de Sanguinhedo com o mestre Joaquim do Pinto… Os próprios músicos de Sanguinhedo comentaram que a Banda de Mateus tinha um trombone de eleição, excelente de técnica e sonoridade.

Morreu cedo o meu amigo Cartaxo. Sofreu imenso. Sofreu agarrado à lembrança dos amigos, à ternura da mulher e ao amor incomensurável das duas filhas.

Boa viagem Cartaxo. Leva contigo a amizade e os momentos fantásticos que passámos juntos…leva também a música, essa musa que sempre ilumina quem a ama e quem a sente. 

Leva contigo a ternura, a partilha, o gregarismo que une as pessoas na adversidade e aquela voz que era só tua, ciciada, a dizer-nos que resistir é uma forma soberana de combater e ganhar… e tu, Cartaxo, soubeste fazê-lo tão bem.

Leva aquele abraço sempre amigo. Aquele abraço que é teu e é meu… Um abraço gigante que consiga abarcar todas as pessoas que passaram pela tua vida e que contigo construíram um mundo que tu sonhavas e querias. E tu, Cartaxo, só querias um mundo melhor. Um mundo sem ódios nem agressividades. Um mundo onde todos pudessem sorrir e sonhar.

 Há muitos lenços brancos e flutuantes a acenarem-te desejando-te boa viagem e na curva dos olhares se manifesta a saudade imensa da tua partida.

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