Adérito Silveira

Bandas em São Martinho de Anta

Agosto é um mês particular de festas e romarias.


É o mês dos grandes frutos em que as debulhas têm a seu término e os pêssegos turgescem e se fazem os cálculos sobre a abundância ou escassez das nossas vindimas. É o mês em que no dia 15 se honra Nossa Senhora da Azinheira em São Martinho de Anta. Aqui neste dia é sempre apetecível ouvir as bandas de música no concerto da manhã e que começa por volta das 9 horas, prolongando-se até ao meio-dia sem qualquer paragem ou intervalo…

O largo da vila transforma-se em torrente sonora pelos sons oferecidos através da execução sempre brilhante das bandas filarmónicas.

Vale a pena ouvir. Não há barulhos exteriores. Não há cochichos, nem blasfémias. Não há uma aresta, uma transição brusca, um sussurro, um dizer mal da sogra, ou do vizinho, nem maus pensamentos porque tudo é envolvente, versátil e contagiante. 

Os músicos, inspirados pela Senhora da Azinheira e pelo povo que os sabe ouvir, tocam com arte e com alma. Eles sabem que o povo vibra ao seu toque. Sabem também que São Martinho de Anta é um lugar mágico, espécie de santuário onde e só predomina a música em toda a sua dimensão espiritual e força telúrica. 

Este ano, no concerto da manhã estiveram presentes as bandas de Lousada e Famalicão. Duas coletividades artísticas emblemáticas que ao longo do tempo têm sabido construir os alicerces necessários para que hoje elas sejam admiradas e respeitadas. O repertório foi vibrante, eclético e bem tocado levando a que a assistência não regateasse fortes e calorosos aplausos.

Vale a pena ouvir as bandas filarmónicas quando as pessoas as respeitam e valorizam…

Vale a pena visitar a terra do poeta Miguel Torga, sobretudo em dia de festa e deleitar-se com o fascínio da música porque nenhum som se perde, nenhum som se desvirtua.Vi rostos marcados e transfigurados pela alegria das emoções. Rostos e olhares fitos, deambulando na beleza dos sons. Alguns, quase que incontidos, quase que transformados ao ponto de penetrarem bem fundo da alma. E a alma é frágil quando forças poderosas da arte se querem dela apropriar para nela se instalarem de vez…

No concerto da noite, as bandas ofereceram o que de melhor tinham para dar: a sua arte colorida, fluente e luminosa…E a multidão vibrou quando a Banda de Lousada tocou a Rapsódia “Portugal a Cantar”. Esta peça popular e mítica é revestida de temas que estão na raiz da criação do povo que pela música criava laços de amizade, cantarolando nos trabalhos agrícolas a chama incandescente do amor à vida e ao mundo dos afetos. 

O povo de São Martinho de Anta continua de parabéns pela forma alegre e hospitaleira como trata e recebe as nossas bandas filarmónicas. 

O grande Torga considerava o Douro como lugar de “paisagem cultural”, um excesso da Natureza”. Antes indomável, agora navegável, o Douro, sim, é simplesmente deslumbrante, uma bênção para os transmontanos. Trás-os-Montes, como Miguel Torga dizia, é um reino maravilhoso, onde há montanhas que mais parecem altares com capelinhas que embriagam a grandeza dos olhares. São Martinho de Anta pertence por direito próprio a esse reino maravilhoso com o Douro ali tão perto. E a música confere aos seus habitantes a delicadeza das palavras, a subtileza do pensamento, o sorriso da amizade e das atitudes enobrecidas pela grandeza da simplicidade e sensibilidade. 

Para os verdadeiros melómanos, a música é religião. Ouvi-la é um ato de fé. Executá-la um ato de adoração. Pela música, o povo canta e sente a alegria da vida.

Em São Martinho de Anta o povo aglomera-se em frente aos coretos e a música torna-se a arte maior, gigante mesmo, porque ali quem a ouve tem alma e coração e as bandas filarmónicas sentem-se reconfortadas e com futuro…

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