Adérito Silveira

Epístola ao meu avô

Um avô é algo que não se separa de nós, nunca!


Quando lembro o meu avô Zé da Moura ainda me sufoca a respiração e sinto amarrados os pulsos na impossibilidade de agir… Acredito no desespero e na dor infinita desde a hora que ele partiu. Acredito no sofrimento eterno por alguém que saiu de nós para sempre…

Acredito na dor e na solidão de um olhar no rosto enclausurado de um avô. 

Acredito na dependência. 

Acredito no golpe de misericórdia que a foice da morte sempre impõe quando nos finda o prazo de ver morrer alguém que é sempre um pouco de nós.
Depois da morte de um avô, continua sempre um vazio num espaço que era preenchido por um ser muito especial. Um avô é a força motriz que impulsiona a vida dos filhos e dos netos…

Morreu triste por não ver o mar… enquanto era transportado na madeira severa e rude, os netos o choravam ao mesmo tempo que o viam renascer porque não acreditavam que o avô fosse num caminho sem retorno. E a imaginação era fértil por amor ao avô Zé da Moura… do caixão fechado brotavam duas asas brancas e pedaços de diamantes cravejados na coroa como se tratasse de um grande rei… sim porque os avós na imaginação dos netos são as pessoas mais importantes à face da terra.

Ao ouvir as histórias fascinantes do meu avô, ainda me soluça o peito por o lembrar nas mais belas memórias. E as lágrimas doem porque o lembro na prisão do choro… dizem que tinha uma voz sábia e humilde e um perfume próprio de pessoas imaculadas, pessoas onde só os anjos ficam bem como companheiros.

O meu avô foi pilar que suportou tantas dúvidas e desafios na vida dos filhos e dos netos. Ele foi porto de abrigo dos vendavais que assolavam a vida da família… Ele foi o elo mais forte de uma família atribulada por tantos problemas impostos pela vida. Ele foi o mestre que ensinou no trabalho a importância do saber rezar para que as dificuldades se dissipassem na chama e no clamor do amor mais puro…

Quando o lembro, sinto que estou cada vez mais perto dele. A minha voz procura alcançá-lo e os meus braços pequenos se estendem e o querem apertar…
“Tu, Zé da Moura, meu avô,por aquilo que fizeste, és o anjo que sempre repousa docemente nos dedos e nos braços magnânimos de Deus que o imploravas nas horas difíceis….

Não viste o mar nunca, mas imaginaste as águas que na sua profundidade e lonjura davam a imagem de uma serenidade que era a tua quando partiste pela missão cumprida… O mar ficava longe e o que tu ouvias dizer dele eram histórias de medos onde havia peixes gigantes que comiam pessoas e moravam animais temíveis que puxavam os navios para o fundo.

Tiveste uma morte serena, a melhor das mortes… Foste para a cama sabendo que não ias acordar… Foste saboreando melodias belíssimas que tinha tocado no seu clarinete enquanto músico da Banda do 13 e da Banda de Mateus…. Qualquer um de nós gostaria de ter uma morte assim: sem violência, sem rancor e sem invejas deslizando leve para o outro lado da vida partindo em sonhos de justiça, serenidade e paz…

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