Alfredo Mota

Medicina e SNS

Hipócrates (460-377 a.C.) o “Pai da medicina” cedo, há mais de 2000 anos, se apercebeu que: “A doença é uma alteração da ordem estabelecida”, isto é, algo que a natureza estabeleceu e que foi alterada por comportamentos impróprios ou por fatores externos.


Desde então, a medicina fez o seu percurso, lentamente e com dificuldades face aos meios existentes. Na verdade, durante muitos séculos o ofício de médico teve enormes limitações pois, praticamente, estava reduzido à observação do doente, ou seja, olhar para ele, ver-lhe as urinas, eventualmente prová-las, depois especular. Nos últimos dois séculos XIX e XX os progressos foram tremendos como se pode ver, entre outros, pelos indicadores dos países mais desenvolvidos: a esperança média de vida passou de 25 anos, no fim do século XVIII, para 45 no fim do século XIX e para 78 anos em 1995. A mortalidade infantil (por cada 1000 nascimentos) passou de quase 500 no fim do séc. XVIII, para 150 em 1900, 52 em 1950 e 7,2 em 1990. Dir-se-á que estes progressos não se devem somente à medicina.

É verdade, houve avanços noutras áreas como na habitação, na higiene, na alimentação, na educação etc., mas a principal quota de responsabilidade cabe à medicina, na sua vertente preventiva (vacinas) e no respeitante ao diagnóstico e às terapêuticas curativas. Os princípios porque se deve orientar o médico são os que Ambroise Paré, cirurgião do século XVI, enunciou: “A arte da medicina é curar algumas vezes, aliviar frequentemente, confortar sempre.” Os extraordinários avanços científicos e tecnológicos conseguidos não nos devem levar a esquecer estes princípios até porque o médico continua a ser o confidente do doente que mais do que tratar doenças trata pessoas que estão doentes. Como nos ensinou William Osler um dos pais da medicina moderna: “Antes de conhecer a doença que o homem tem, o médico deve conhecer o homem que tem a doença”. Infelizmente a burocratização da assistência médica e a funcionalização dos médicos estão a fazer com que estes princípios sejam cada vez menos seguidos o que leva à degradação do ato médico. O Serviço Nacional de Saúde (SNS), que este ano comemora os seus 40 anos, vem-se degradando e todos apontam para as razões económicas, falta de investimento e de modernização, escassez de pessoal e de recursos, etc. mas são poucos os que se preocupam com a deterioração das relações médico-doente, que leva à perda de confiança do doente, à frustração do médico e ao falhanço da própria medicina. É um caminho que urge combater e inverter para evitar as situações que os jornais todos os dias denunciam pois como alguém disse: Antes a medicina era simples, ineficaz e razoavelmente inócua; agora, é complexa, eficaz e potencialmente perigosa.

O Prof. João Lobo Antunes, eminente professor catedrático de medicina, um estudioso destas questões e um cultor e defensor dos princípios hipocráticos e oslerianos da relação médico-doente, explica de forma clara esta funcionalização dos médicos e a transformação dos centros de saúde e dos hospitais do SNS numa espécie de centros comerciais da saúde: “Não raramente, sinto hoje que quem me procura acha que a sua escolha lhe dá um direito de consumidor, e que pouco me distingue de um empregado de sapataria, ou de caixa de supermercado... como se a consulta fosse uma espécie de transação, em que se compra a cura,… ou  se garante, pelo menos, um atestado”. É evidente que esta postura que se traduz, no dia a dia, na frase ameaçadora e arrogante do utente para com os serviços ou para com o médico, “Eu desconto tenho direito” (o que é mentira porque os descontos são para a segurança social e não para o SNS), inquina logo à partida a relação médico-doente base da arte médica! Este estado de coisas deve ser combatido pelos profissionais mas também pelos responsáveis políticos que, ao quererem à viva força acabar com as listas de espera, sem aumentar os recursos, “atiram” para cima dos médicos listas infindáveis de utentes (assim são designados) transformando a consulta médica num atendimento (?) a despachar e/ou num “aviar” de receitas de medicamentos.  

 

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