Paulo Reis Mourão

ELEIÇÕES LEGISLATIVAS 2019

Vila Real e Bragança – O PS ficou para lá do Túnel do Marão

O distrito de Vila Real favoreceu o PSD (3 deputados eleitos) nestas eleições legislativas, contrariando a expetativa existente de que a dinâmica nacional projetasse o PS da região (2 deputados eleitos). O distrito de Bragança colocou 2 deputados do PSD e 1 do PS nos assentos de São Bento para compor a legislatura em escrutínio.


Se não podemos falar em surpresas ao nível dos lugares ocupados, já a dinâmica alcançada por partidos como o PAN (que mais do que duplicou os votos de 2015 na região) ou o Bloco de Esquerda (que aumentou significativamente a proporção de votos de há quatro anos) mostra que os eleitores dos dois distritos do nordeste nacional ficaram sensíveis às mensagens dos cabeças de lista distritais destas forças mas sobretudo ao contágio vindo das respetivas figuras nacionais. Em contrapartida, PCP-PEV tiveram menos um milhar de votos na região face a 2015 e o CDS-PP perdeu mais de 10 mil votos em relação a 2011 (a eleição mais recente em que concorreu sozinho)! As forças políticas concorrentes menos votadas na região foram o ‘Nós Cidadãos (NC)’, o Partido Nacional Renovador, o PDR e o PPM – além disso o NC um movimento cívico intelectual que é uma pálida réplica do homónimo espanhol e a expressão mais conotada à denominada Extrema Direita acabam ainda por ter também menos votos do que há quatro anos. De salientar que no ‘campeonato do 1%’ regional, os movimentos que estiveram quase lá foram o populista Chega (especialmente por reflexo nacional), o RIR (associado a Tino de Rans) e o Aliança (que tem pouco mais de metade dos votos conseguidos nas Europeias de Maio de 2019).

A campanha eleitoral nos dois distritos decorreu em ações que na generalidade ficaram órfãs de uma presença mediática dos principais líderes nacionais – se nos concentrarmos no período das últimas duas semanas. Obviamente, percebe-se a concentração dos ‘rallies’ dos principais partidos junto do eleitorado concentrado nas faixas litorais mas como – e bem – A Voz de Trás-os-Montes antecipava na última edição o equilíbrio latente em distritos como os de Bragança ou de Vila Real trouxe uma responsabilidade especial a todos os que se envolveram na campanha no local. Portanto, apesar da orfandade dos tutores (os líderes nacionais), os filhos (as distritais e concelhias) não deserdaram a família e fizeram a veiculação dos programas possíveis para lá de um par de debates regionais que reuniram só algumas das forças com assento parlamentar e que pela amostra que consegui analisar ficaram muito aquém de modelos já experimentados (inclusive pela própria A Voz de Trás-os-Montes).

No entanto, seria desejável uma compensação sobre a região por parte das forças chamadas a compor o Executivo em três dimensões urgentes:

1) Investimento (neste caso não o chamado efeito ‘pork-barrel’ que como tenho estudado leva a que os governantes premeiem os seus constituintes mais decisivos nas batalhas eleitorais como se viu no PNI 2030 , mas mais pelo efeito ‘lost lamb’ procurando captar a ovelha perdida em Trás-os-Montes através de um plano vigoroso sobre o Investimento que é o vetor da Despesa Nacional mais estacionário nos últimos anos e a maior vergonha económica da região);

2) Reconhecimento político (através de alguma ou algumas das figuras associadas aos movimentos vitoriosos chamadas para lugares no Executivo, sobretudo de Ministérios influentes e não de Secretarias de Estado invisíveis/obscurecidas ou para Ministérios de rodagem);

3) e condução das reformas políticas que se impõem neste período que antecede os cenários difíceis que colegas macroeconomistas antecipam comigo para 2022-2023.

Como eleitor que vota na região, espero uma presença muito mais conseguida dos concidadãos parlamentares eleitos pela mesma região no mandato que se segue, uma visibilidade maior de todos eles e uma capacidade maior de trazerem mais riqueza e bem-estar, justificando o número que os dois distritos ainda vão tendo em São Bento.

Os desenhos emergentes de formação de Governo colocam ansiedades nos mandatados e na longevidade da legislatura. As figuras de homens e mulheres de Estado tendem a aproveitar em favor deles e dos seus constituintes políticos esses momentos – sobretudo quando sabem trabalhar em cluster em favor da região e em lobby para os interesses da região. No fundo, quando são transmontanos e quando não são caricaturas camilianas como sombras de Calistos Elóis ou Morgados de Fafe em Lisboa.

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