Adérito Silveira

Orquestra de Jazz do Douro — Uma orquestra de nível superior

A Orquestra de Jazz do Douro esteve, no dia 11 de outubro, soberba atuando no Teatro Municipal de Vila Real.


Teve uma interpretação intensa e coesa de nível verdadeiramente arrebatador. Trata-se de uma orquestra que traz uma lufada de estímulos artísticos a uma vasta região. A empatia e o fluxo anímico com o público foram a tónica de um concerto que vai ficar na memória de todos os presentes. A assistência em grande número não se cansou de aplaudir o conjunto de músicos de nível superior que nas suas intervenções inundaram de emoção e entusiasmo todo um espaço possuído de sons vivos, expressivos e transbordantes.

Assistiu-se a um verdadeiro espetáculo, uma espécie de pérola exponencial da exploração musical, porque um espetáculo pode e deve ser projeção do delírio do público e o jazz como arte por excelência representou isso mesmo: a projeção delirante dos sons, sons que contagiaram toda a sala.

Os músicos de jazz são filiados num fluxo musical específico – o jazz- que é independente de outros fluxos, que são definíveis na sua estrutura. O músico do jazz tem uma obrigação: libertar a música do espetáculo, encontrar as formas verídicas do seu discurso, assumir a consciência do seu poder como linguagem não escrava de normativos, regras ou clichés sentimentais que atrofiem o pensamento libertador. 

A orquestra tem na sua formação três vozes muito qualificadas que dão à música a nobreza de um timbre ora doce ora acutilante, mas dão, sobretudo, pela voz a alma de quem sente a grandeza de uma arte superlativa no conjunto das demais. Timbres límpidos, afinação segura, técnica escorreita e maturidade musical impuseram-se nas várias intervenções.

O espetáculo teve um momento muito particular com a intervenção de um tema de George Gershwin: “Um Americano em Paris” no qual o autor se inspirou através de uma viagem à cidade-luz… todo o charme parisiense se espraia nesta peça cheia de colorido sedução e movimento. O autor escreveu esta obra com toda a liberdade, ao correr da pena como quem conta uma história simples mas fascinante para melhor prender os ouvintes. A exuberância rítmica é poderosa e a orquestração final é pungente… O clarinete sobressaiu neste Americano em Paris com a intervenção categórica do Prof. Alexandre Fraguito. Mostrando uma sonoridade transparente e envolvente assistiu-se a uma execução cheia de beleza, perfeita de técnica deixando rendida uma plateia que aplaudiu entusiasticamente.

O Maestro Válter Palma foi galvanizante, realçando de forma magistral e convicta algumas fantasias e interioridades saídas das partituras. Com uma postura quase que informal e descomplexada, a sua direção deu à orquestra aquele élan triunfal indispensável para que os músicos tocassem descontraídos, contagiando-se eles próprios com a condução do Mestre… Válter Palma é já uma referência emblemática no conjunto dos mais promissores maestros do nosso país. É difícil não sucumbir à emoção e ao prazer, à simplicidade e simpatia que ele empresta aos seus músicos.

O resultado global do concerto suplantou todas as expectativas: a sala ovacionou de pé um concerto memorável, onde a carga inovadora de sensações provocou na audiência um ambiente de redobrada felicidade.

O lançamento do CD da Orquestra de Jazz do Douro foi coroado de um sucesso revelador da categoria de um conjunto que merece atuar nas melhores salas do país… inexoravelmente.

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