Adérito Silveira

Infeliz ocorrência

Era bem cedo ainda e num café de Vila Real eu saboreava a leitura do jornal… espirava-se bem. No ar circulavam agradáveis aromas, fruto das guloseimas regionais que convidavam ao prazer do olhar e à vontade da degustação.


O insólito havia de chegar por volta das oito e meia desse domingo sem que nada o fizesse prever… Lá fora os autocarros em fila iam estacionando. Dentro deles saiam pessoas aos magotes, apressadas que se dirigiam para o interior do café onde eu estava sentado placidamente no deleite ameno da leitura.

De repente aquele lugar virou pestilência insuportável, odor fétido comparável a animal morto depois de dias a putrificar em berma de estrada.

Tentei conter a respiração evitando tão desagradáveis aromas… os empregados rabujavam com o insólito. Quem estava sentado, levantou-se, procurando pagar a sua despesa e fugir dali de nariz tapado… alguém, com a pressa, deixou dinheiro de sobra, desaparecendo como o diabo da cruz. Em várias mesas ficaram por encetar copos de leite, galões, cafés, sandes, torradas e bolos praticamente intocados, pois o ambiente assim o determinava.

Do meu cantinho habitual olhei para a caixa registadora, ouvindo protestos de vários clientes, enquanto dois empregados diligentes com baldes, esfregonas e produtos de limpeza deitavam mãos à obra… gente em bicos de pés e pessoas das excursões caminhavam, cuidadosamente, pelo corredor do café, evitando assim pisar as várias silhuetas nefandas.

Era preciso perícia e reflexos apurados para sair dali ileso… 

Também eu já não suportava o sacrifício da minha dificultada respiração e quis pagar quanto antes a conta, fazendo cálculos, fugir dali, simplesmente fugir… e assim foi: deixei uma moeda de dois euros para pagar a despesa de um atribulado café, não esperando pelo troco.

Despertou-me a curiosidade e vislumbrei no chão pedaços de cocó perfilados geometricamente como militar aprumado em desfile de parada…o autor dessa infeliz desova encontrava-se já nos lavabos certamente envergonhado pela infeliz ocorrência.

Os empregados não perderam a compostura nem o sentido profissional… Olharam as bafientas massas fumegantes que perfiladas desde a entrada da porta, seguiam a sua marcha até à entrada da casa de banho.

Tudo começou quando um homem à beira dos setenta anos, não aguentando os intestinos, deixou cair as calças automaticamente… ali, naquele espaço público o excursionista perdeu um pouco do seu ego e das suas glórias como militar graduado reformado com divisas que em tempos ostentara…

A conspurcação das roupas, obrigou a que o infeliz pedisse a alguém que lhe comprasse roupa numa casa de pronto a vestir situada mesmo ao lado do café… para o efeito teve a ajuda dos empregados e do dono do estabelecimento… a operação durou uma hora e o motorista da excursão, abrindo a porta do café, berrou bem alto: “Ó senhor Chico despache-se lá…”

Alguns curiosos fora de portas quiseram saber quem era o infeliz, esperando por ele como alguém que tivesse cometido um delito grave ou pessoa de aspeto rude e miserável... Em vão a satisfação desse prazer, pois tratava-se de um cavalheiro de boa figura, presumivelmente galanteador quando jovem… apenas tinha feito uma viagem atribulada pela má disposição provocada por umas suculentas mas retardadas tripas comidas durante a viagem…

Esta infortunada ocorrência pode acontecer a qualquer viajante, independentemente do seu estatuto, religião, sexo ou idade…Em deleitosos sabores ingeridos naquilo que comemos, o nosso corpo nem sempre nos obedece e perante momentos de aperto intestinal ele claudica descarregando inoportunamente como corrente giratória e desenfreada, como rio furioso que ninguém controla nem domina.  

Já um jogador de cartas dizia ao padre da paróquia, quando numa hora de emergência precisou de ir ao banheiro numa tasca da aldeia, que mais parecia uma nitreira: “Padre, nós não somos nada, o corpo é que nos comanda…” “Tal e qual”, respondeu o prior.

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