Paulo Reis Mourão

As desventuras das teses de doutoramento dos políticos

Recentemente, a tese de Doutoramento de um político português, ultimamente eleito para a Assembleia da República, originou alguma celeuma no espaço de opinião pública.


Descobriram-se lá conclusões que assim retiradas parecem contrariar o ideário (divulgado) de suporte da força política do referido deputado. Ainda que tal exercício seja inócuo para os fins que eventualmente se almejavam – pois uma “tese de Doutoramento” – ainda mais em Ciências Sociais – é um reflexo contingente como qualquer produto científico, o que gostaria de partilhar com os meus leitores agora prende-se com duas dimensões principais – a importância política das Teses de Doutoramento e o elemento de continuidade do argumentário da tese com a convicção do Autor.

Na primeira dimensão – a importância política – não deixa de ser curiosa a valorização que os Políticos dão para serem Doutores e a pressa que a Comunicação Social empresta para procurar fontes de plágio, lapsos metodológicos, conclusões enviesadas ou resultados forjados no referido documento. Em primeiro lugar, não só os Políticos como toda a Sociedade deveria valorizar qualquer Tese de Doutoramento, reflexo de anos de dedicação, frustrações, maturidades sobre-humanas, exigências exógenas tantas vezes incompreensíveis, expetativas alimentadas e tantas vezes desrespeitadas, sacrifícios monetários e energéticos – para lá da hecatombe intelectual – que culminam na defesa pública, na aprovação, no depósito da tese e na sua disponibilização e derivação (em Artigos ou Livros). Como em qualquer espaço de ‘élites’, também depois as Teses são ‘rankeadas’ em função do potencial concretizado de publicações indexadas, da projeção dos Orientadores, da qualidade da Universidade, etc., etc. Mas, de sobremaneira, a hipervalorização dada pelos Políticos a este elemento prende-se com uma colagem tradicional que – sobretudo na cultura nórdica-europeia associa os mais educados aos mais íntegros. Logo, um cidadão doutorado será aprioristicamente um cidadão mais íntegro e um político doutorado terá uma sobrecapa de integridade. Mas mais do que a Tese de Doutoramento de um sapateiro ou de um pedreiro (que as há, sem pasmo saliente-se – para não falar das muitas Teses de Doutoramento de desempregados e infelizmente como recentemente um estudo norte-americano provou – inclusive de sem-abrigo…) a Tese de Doutoramento de um Político é muito mais filtrada pelos ‘SafeAssigns’ mediáticos do que a Crítica da Razão Pura ou as entrevistas do Sérgio Conceição. Para lá de pressões dos seus inimigos políticos que junto dele se sentam na mesma bancada partidária, os órgãos de Comunicação Social parecem interessados em encontrar aquilo que à partida deveria ter sido encontrado no Júri que aprovou o cidadão como Doutor – máculas de plágio, transcrições malfeitas, viés metodológico, dados forjados, etc., etc.

Gosto por trazer à mediania o petulante? Gosto por fazer-se justiça que não foi feita no tribunal académico? Gosto por ridicularizar? Obviamente, como todos sabemos em política, ‘viúva rica sozinha não fica’ e após a queda dos políticos plagiadores, forjadores, ou encomendadores de teses os verdadeiros interessados tendem a aquecer-lhes os lugares na tribuna.

A segunda dimensão – a continuidade do argumentário – é talvez a mais ingénua destas duas dimensões. Fraco é o cientista que passados cinco anos do Doutoramento não tem desejo de repetir, refazer, ou contrariar todas ou boa parte daquelas conclusões alçadas na juventude da sua investigação. Não é preciso ser um vira-casacas político mas é preciso ser racional. Metodológico. Crítico. A Ciência não é Fé, logo não é Dogmática. No entanto, nem sempre os Cientistas viram para o melhor lado. Mas uma coisa boa que eles – a maioria deles - têm, é que reconhecem mais depressa – e sem tanto alarido -  os erros. Mais depressa do que a maioria dos cidadãos. E obviamente do que a maioria dos concidadãos Políticos. 

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