Alfredo Mota

Porque sou médico (1)

No artigo anterior escrevi algo sobre o “pensamento” e, a propósito, prometi escrutinar a minha memória/pensamento acerca da minha vida de médico para tentar responder às perguntas – Porquê e Como? 


A circunstância de meu Pai ser médico urologista fez com que a medicina cedo tivesse entrado na minha vida e daí a minha opção profissional ter sido um processo natural e simples.

Na verdade, em minha casa tudo girava à volta de meu Pai e do seu ofício de médico que o ocupava todo o dia, no hospital, no consultório e na clínica. Falava-se de medicina respeitando as regras deontológicas, embora a minha condição de filho único e uma irreverente curiosidade própria da idade, contrariassem, muitas vezes, a discrição implícita de alguns temas mais sensíveis. A história é comum a muitos filhos de médicos, em que se junta a herança de um património de valores e a preservação de uma tradição que atravessa gerações. A minha escolaridade médica que decorreu em parte da década de sessenta até 1972, permitiu-me viver o período de ouro da medicina científica que, nestes últimos 50 anos, progrediu mais do que nos milénios anteriores. Em 1968, já eu assistia à conferência do Prof. Barnard, em Coimbra, sobre a 1ª transplantação cardíaca realizada no ano anterior, 1967, na Cidade do Cabo. Nesta época recordo 20 de julho de 1969 como um dia particularmente excitante: pelo meu Pai tive conhecimento do 1º transplante renal realizado no nosso país pelo Prof. Linhares Furtado que, naturalmente, a todos entusiasmou pelo seu significado local e nacional. Mas, se estão bem lembrados nesse dia, o Homem chegou à Lua, o que se por um lado prejudicou, a divulgação deste feito da medicina coimbrã e portuguesa, por outro não era de todo abusivo usar a metáfora do passo de gigante para caraterizar este extraordinário contributo que Coimbra trouxe à medicina portuguesa. Nos anos seguintes assistiu-se ao espantoso desenvolvimento da tecnologia nas diversas áreas da vida humana e nomeadamente da medicina. Bastará recordar que: Quando me licenciei, em 72, não havia cassetes, nem vídeos, nem CDs, nem DVD. Quando terminei a especialidade, em 79, não havia calculadoras, nem computadores, nem telemóveis, nem internet! Em 1980, quando iniciei a minha atividade como urologista não havia Ecografia, TAC, RMN! Nos finais de 80 e princípios de 90, a informática invadiu os hospitais e apropriou-se da medicina, ao ponto de se dizer que o médico passou a contactar mais com o computador do que com o doente.

Tudo foi tão rápido e espantoso que teremos que dar razão aquele professor de Harvard que, no início do curso de medicina, dizia aos seus alunos: “Metade do que vos vou ensinar estará errado no final do vosso curso, só que eu não sei qual é essa metade”. Vivi, portanto, esta aventura fascinante que é a medicina num período de glória do progresso e do saber, mas tudo seria diferente se não fossem as pessoas que me acompanharam, família, mestres, colegas, amigos, doentes, etc., com quem aprendi a vida e a ser Homem, Cidadão e Médico. A minha gratidão – e a memória alimenta-se muito deste nobre sentimento – vai para todos os que me ajudaram a chegar até aqui. É certo que a felicidade é uma construção pessoal, numa procura constante sem fim ou limite e só se alcança se soubermos rodear-nos dos melhores. Foi o meu caso, e por isso posso dizer que tenho sido feliz e que Deus foi muito generoso comigo. Fui e sou o principal responsável desta história, porque como disse o poeta: “O destino destina, mas o resto é comigo”. Mas houve corresponsáveis. Falaremos deles em próximos artigos.

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