Adérito Silveira

A grande festa do bombo em Vila Real

Vila Real teve nos dias 23 e 24 a V Edição do Congresso do Bombo, onde participaram 40 grupos de vários pontos do país. Um evento enorme de significado da nossa cultura popular.


Esta V edição foi um sucesso total e procurou dar voz aos tocadores do bombo. Este facto é a prova de que há pessoas que têm procurado formas de promover a música tradicional, divulgando e desenvolvendo atividades culturais e recreativas que beneficiam e enriquecem a vida social de um povo. A música tradicional tem sido um embaixador privilegiado de uma região transmontana e duriense feita por homens e mulheres de granito e de um só rosto.
 

O TocáRufar e o Grupo de Bombos Águias da Lage ao organizarem este V Congresso do Bombo pretenderam promover meios que desenvolvam e aprofundem uma atividade de particular valor histórico e patrimonial.

Fazemos votos para que as aspirações destes 40 grupos participantes irmanados nos bombos consigam os sucessos desejados com respostas positivas dos governos para que através destas ações se fortaleçam laços de amizade e cooperação entre as várias comunidades que formam a língua do toque popular do bombo português.
Uma escritora americana chamada Raquel J. Palacio disse que as coisas que fazemos sobrevivem a nós. São monumentos em que as pessoas erguem em honra dos heróis depois de eles morrerem. Também nós morremos um pouco quando pedaços da cultura popular desaparecem de vez. Manter e fortalecer as tradições populares é contribuir para uma sociedade melhor, tornando mais fraterno o torrão onde nascemos e havemos de querer morrer. A música, independentemente do género tem a particularidade de unir as nações naquilo que elas têm de mais genuíno porque nas lembranças do passado nós valorizamos a nossa identidade e a nossa história.

Na música dos bombos, os ritmos arrojados surpreendem pela sua variedade, força e vivacidade desafiando todos os clichés deixando boquiaberto o povo que vibra entusiasticamente.

O grupo de Bombos “Águias da Lage” possui já obra feita. Fundado em 2001, tem mostrado, em muitas festas e romarias, a sua classe e o seu perfume exibicional. A liderar o projeto artístico está o compositor e músico popular, como gosta de se afirmar, Rui Fraguito, pessoa apaixonada por tudo aquilo que faz, sendo a área da etnografia a sua fonte inspiradora, a musa que o tem levado aos palcos da ribalta. Para todos os que conceberam o V Congresso do Bombo e lhe deram voz desde 2015, o país reconhecerá certamente tão arrojado evento colocado à altura das suas aspirações e da nobreza dos seus propósitos.

A música de bombos tem preenchido a vida de muitos tocadores que, desde cedo, estiveram ligados a ela expressando alegrias, dores, mas também a realização de sonhos e conquistas. Para muitos tocadores tocar significa a libertação total porque o toque do bombo é força motriz da própria música que congrega vivências comunitárias de cooperação e não de competição.

 Há muitas histórias de amor ao bombo. Lembro uma mulher de muita idade que cantarolava uma velha canção ao toque de um velho bombo que o pai lhe tinha oferecido quando era ainda menina. A melodia era triste mas a velha mulher cantava-a com veneração como se fosse um tesouro da família, ou a passagem segura para a vida do além. E a letra versava assim: “Ó lua vem dar luar/ à campa da minha amada/ ela chora coitadinha/ por se ver ali sozinha/ naquela triste morada”. 

Depois de uma outra toada a velha mulher não resistiu à forte emoção das lembranças e morreu ali mesmo resignada mas com tempo ainda de aconchegar o bombo bem perto do seu coração. Afinal pelo bombo se vive e pelo bombo se morre. E os tocadores,pelo seu tocar, mostram a força da sua alma lembrando todos os que partiram por amor ao bombo.
É de inteira justiça referir Rui Júnior, nome incontornável na organização das várias edições dos congressos do bombo. É um homem simples e sábio que merece todas as honras pela sua paixão irrequieta e calorosa que dá ao fantástico mundo do bombo.

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