Daniel Conde

Porque deve o Corgo esperar pelo Douro?

A Infraestruturas de Portugal anunciou uma série de adiamentos e suspensões de obras ferroviárias do Programa Ferrovia 2020.


Entre elas, a electrificação da Linha do Douro do Marco de Canaveses à Régua, obra prevista para terminar em 2019, e que nem sequer arrancou ainda, visto o consórcio vencedor do concurso invocar dificuldades técnicas.

Um parêntesis neste caso: ou bem que se electrifica até ao Pocinho, ou teremos uma manta de retalhos entre serviços com material diesel e/ou eléctrico. Quem se lembrar da péssima experiência que foi inventar transbordos na Régua no início deste século, ou os anos em que o Intercidades da Beira Baixa mudava de locomotiva em Castelo Branco, onde acabava a catenária, para seguir para a Covilhã, não pode antever nada de bom de tal non sense.

Mas o motivo da realização deste artigo vem de outra questão. Pela primeira vez, uma Comunidade Intermunicipal – neste caso a do Douro – discutiu e produziu uma resposta aos meus contactos a respeito da reabertura de vias-férreas em Trás-os-Montes. Contudo, o que ficou definido em sede de reunião dos seus autarcas a respeito da minha proposta de reabertura da Linha do Corgo foi um contra-senso. Segundo o 1º Secretário, Paulo Noronha, a CIM Douro está empenhada no dossiê da reabertura da Linha do Douro, e não se quer “dispersar” ao acrescentar a reabertura da Linha do Corgo.

O empenho numa obra que seria absolutamente revolucionária para o Douro, como o reatamento da ligação ferroviária internacional a Salamanca via Barca d’Alva, perdida em 1985, não está em questão, como é óbvio. Mas parece-me igualmente claro que a CIM Douro está a descurar que a Linha do Douro não é apenas uma via-férrea: ela é a coluna dorsal de uma malha ferroviária, que aos seus 200 km de extensão máxima junta outros 387 km distribuídos pelos seus quatro “afluentes”.

Reabrir a Linha do Corgo, pelo menos até Vila Real, significa reconectar uma capital de distrito à rede ferroviária nacional, trazendo mais passageiros para a Linha do Douro. A própria Infraestruturas de Portugal produziu recentemente um estudo notável, no qual apresenta cenários de reabertura da Linha do Douro a Espanha e respectivos custos de investimento, no qual acrescentou um cenário de reabertura da Linha do Tâmega até Amarante. Ou seja, debruçou-se sobre a Linha do Douro com uma visão de Rede, onde um troço afluente, por mais pequeno que seja – de Livração a Amarante vão apenas 12 km – cria sinergias. A recomendação de se criar um novo canal em Via Larga, sextuplicando o custo de reabertura em relação à opção por Via Estreita, é que já são outros quinhentos…

Reabrir a Linha do Corgo custará à volta de 11 Milhões de euros – 1,6 Milhões de euros apenas, com um possível financiamento comunitário a fundo perdido. A “dispersão” em acrescentá-la a uma intervenção de fundo na Linha do Douro é algo que nem compreendo nem posso aceitar. Nenhuma das capitais trasmontanas tem ligação ferroviária: Vila Real há 10 anos, Bragança há 28 anos. Isto não é desenvolvimento, é estagnação e insustentabilidade. E se isto não está nas prioridades dos governantes locais, então não percebo qual o rumo que se quer para Trás-os- Montes.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

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